A atracação do navio-hospital chinês Silk Road Ark no Porto do Rio de Janeiro, na semana passada, reacendeu análises sobre a disputa naval entre China e Estados Unidos, em um movimento visto por especialistas como demonstração de soft power e não como ameaça direta ao Brasil.
No campo das relações internacionais, o conceito de soft power se refere à capacidade de um país influenciar outros por meios indiretos, como diplomacia, cooperação, ajuda humanitária, cultura e ciência, em vez do uso explícito de força militar.
No caso da China, missões médicas, navios-hospitais, que são militares, e ações de intercâmbio funcionam como instrumentos de aproximação política e construção de imagem, ao mesmo tempo em que ampliam sua presença institucional e logística em regiões estratégicas. Diferentemente do poder militar tradicional, o soft power busca moldar percepções, reduzir resistências e abrir espaço para interesses geopolíticos de longo prazo.
Embora apresentado oficialmente como missão humanitária e de cooperação em saúde, o episódio trouxe à tona alertas diplomáticos sobre o avanço da presença chinesa em regiões historicamente influenciadas pelos Estados Unidos – além do risco real de espionagem contra estruturas e portos brasileiros.
Para o CEO da consultoria Casa Política e presidente do Instituto Monitor da Democracia, Márcio Coimbra, a leitura do episódio deve ir além da narrativa oficial. Segundo ele, a missão faz parte de uma estratégia mais ampla da China para ampliar sua influência global sem confronto direto.
“Essas missões operam como um cavalo de Troia moderno. Ao oferecer serviços médicos e intercâmbio científico, a China normaliza a presença da sua marinha no Atlântico Sul, mapeia a logística portuária e coleta dados estratégicos em uma região que sempre esteve sob influência americana”, afirma Coimbra.
O especialista destaca que não há ameaça imediata ao território brasileiro, mas ressalta o simbolismo geopolítico da operação. “Não é um movimento contra o Brasil. É um recado aos Estados Unidos. A China está dizendo que sua capacidade de projeção naval não está mais restrita ao Indo-Pacífico”, explica.
Na mesma linha, o cientista político Adriano Gianturco, coordenador de Relações Internacionais do IBMEC, afirma que mesmo missões legítimas de ajuda externa cumprem funções políticas claras.
“Ajuda humanitária nunca é neutra. Ela cria vínculos, dependência simbólica e acostuma a população e as autoridades locais à presença daquele país. Isso é soft power na sua forma clássica”, explica.
Segundo Gianturco, além do aspecto humanitário, há uma demonstração de capacidade marítima. “É também uma forma de mostrar poder naval, capacidade logística e alcance global. E, inevitavelmente, isso funciona como uma mensagem de desafio aos Estados Unidos e ao Ocidente”, afirma.
-
Médicos brasileiros são impedidos de fazer vistoria em navio chinês
-
Navio chinês atraca no RJ e Conselho de Medicina pede explicações sobre serviços prestados
Estrategista cita desconfiança e leitura de inteligência
O estrategista internacional Cezar Roedel, doutor em Filosofia e estudioso de conflitos internacionais, avalia que o contexto em que o navio chegou ao Brasil reforça a desconfiança sobre os reais objetivos da missão.
“Esse navio é enviado após movimentações militares americanas no Caribe. O timing não é aleatório. Seria ingênuo acreditar que se trata apenas de uma missão médico-hospitalar, especialmente considerando o histórico de atuação da inteligência chinesa”, afirma.
Roedel ressalta que não se trata de declarar uma ameaça bélica, mas de reconhecer o padrão de atuação de grandes potências.
“A China hoje possui um dos maiores serviços de inteligência do mundo. É evidente que uma embarcação desse porte carrega protocolos de coleta de dados, mapeamento de cenários e avaliação logística. Isso faz parte do jogo geopolítico”, diz.
Para ele, o Brasil acaba ocupando um papel passivo nesse tabuleiro. “O país se tornou um espaço permissivo para esse tipo de movimentação, o que transmite ao mundo a imagem de que qualquer potência extrarregional pode usar nossos portos como palco de sinalização estratégica”, afirma.
Rivalidade naval no pano de fundo
A presença do Silk Road Ark no Brasil ocorreu em meio ao acirramento da disputa naval entre China e Estados Unidos. Pequim já tem — ou está prestes a ter — a maior frota naval do mundo e domina grande parte da construção naval e da frota mercante global, responsável por cerca de 90% do transporte marítimo internacional.
Nos Estados Unidos, estaleiros e construtores navais acionaram o governo com base na Lei de Comércio de 1974, acusando a China de práticas desleais, subsídios estatais e dumping — venda a preços artificialmente baixos — para dominar o setor.
Esse cenário impulsionou o discurso de Donald Trump sobre a necessidade de revitalizar a Marinha americana. O presidente dos Estados Unidos defende a criação de uma nova classe de encouraçados lançadores de mísseis, como parte de um plano para recuperar a supremacia naval dos EUA.
Segundo Márcio Coimbra, a movimentação chinesa deve ser lida à luz dessa disputa. “Pequim está testando a elasticidade da influência americana no Atlântico Sul. Cada atracação sem reação firme é um sinal de que o perímetro de contenção dos EUA está mais frouxo”, afirma.
Navio chinês gerou questionamentos sobre limites legais
Apesar da recepção oficial, a visita gerou questionamentos no Brasil. O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) pediu esclarecimentos sobre a possibilidade de terem ocorrido atendimentos médicos por profissionais estrangeiros sem validação local. A Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) e a Marinha do Brasil negam qualquer atendimento direto à população brasileira.
Em resposta ao CREMERJ, autoridades do governo do Rio de Janeiro informaram que não houve qualquer solicitação, despacho ou processo administrativo relacionado à atuação médica do navio chinês atracado no Porto do Rio.
Os documentos informavam que não existiu autorização concedida, nem operação de saúde envolvendo atendimento à população ou atuação de médicos estrangeiros. O governo estadual ressaltou ainda que não era responsável por autorizações internacionais, validação de diplomas ou coordenação desse tipo de missão, e que não recebeu demanda da União nem de autoridades chinesas sobre o tema.
A autorização para a entrada do navio foi concedida em 13 de novembro pelo governo federal e publicada no Diário Oficial da União no dia 18 daquele mês, conforme o Estado-Maior da Armada, órgão da Marinha do Brasil. O navio chinês ficou atracado no Rio de Janeiro entre 8 e 15 de janeiro de 2026.
Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), navios de Estado gozam de imunidade jurisdicional quando atracados em portos estrangeiros, o que limita inspeções internas sem consentimento do país de bandeira.
Contexto da missão global e precedentes no Brasil
O Silk Road Ark integra a Missão Harmony 2025, a mais longa já realizada pela marinha chinesa, com duração estimada de 220 dias. A operação inclui escalas em países da Oceania, Caribe e América Latina, como México, Jamaica, Peru, Chile e Brasil — primeiro destino sul-americano da missão.
A China mantém uma das maiores frotas de navios-hospitais do mundo, frequentemente utilizados como instrumentos de diplomacia humanitária.
Para os especialistas, o episódio reforça que o Brasil não é o alvo da operação chinesa, mas o cenário escolhido para uma disputa maior. “O navio não “aponta” canhões para o Rio. Ele “aponta” para Washington”, resume Gianturco.
O Brasil tem histórico de autorizar a entrada de embarcações militares estrangeiras. Em 2023, um navio de pesquisa alemão foi expulso após operar sem autorização em área sensível, o que demonstra que o país reage diante de irregularidades comprovadas.
-
Navio-hospital chinês barra vistoria brasileira
@jornaldemeriti – Aqui você fica por dentro de tudo.
Fala com a gente no WhatsApp: (21) 97914-2431
