Um júri nos Estados Unidos começará a ouvir os argumentos nesta segunda-feira (9) para decidir se o Instagram e o YouTube projetaram suas plataformas conscientemente para viciar crianças, um caso sem precedentes no qual a figura de Mark Zuckerberg está gerando divisões.
O caso, que será julgado no Tribunal Superior de Los Angeles, pode estabelecer um precedente legal para um grande número de processos nos Estados Unidos contra as plataformas, acusadas de causar vício deliberadamente para maximizar sua receita publicitária.
A seleção dos 12 jurados, aprovada na sexta-feira (6) após mais de uma semana de análise minuciosa, foi marcada por constantes referências a Zuckerberg, fundador da Meta, empresa proprietária do Instagram e do Facebook. Os advogados da Meta lutaram por seis dias no tribunal para excluir jurados que consideravam excessivamente hostis às duas redes sociais.
Por outro lado, os advogados dos demandantes buscaram excluir pessoas, em sua maioria homens, que acreditavam que os problemas de saúde mental dos usuários mais jovens decorriam mais de falhas familiares do que dos criadores das plataformas.
Os réus no processo são a Alphabet e a Meta, as gigantes da tecnologia por trás do YouTube e do Instagram, respectivamente. Embora o TikTok e o Snapchat também tenham sido processados, ambas as plataformas chegaram a um acordo nos últimos dias por um valor não divulgado. O julgamento gira em torno das acusações de uma jovem de 20 anos identificada como Kelly G.M., que sofreu graves danos mentais por ter se tornado viciada em redes sociais ainda criança.
A jovem, usuária do YouTube desde os seis anos de idade e que criou sua conta no Instagram aos 11, acusa as duas plataformas de terem projetado aplicativos viciantes de forma consciente, em detrimento de sua saúde mental.
Zuckerberg e o julgamento
A seleção do júri, dentre mais de 150 cidadãos, foi marcada por repetidas menções ao presidente da Meta. “Sinto-me imparcial em relação à autora da ação, mas, com base nas ações objetivas de Mark Zuckerberg […] acho que a ré começaria em desvantagem”, disse uma jovem. Muitos potenciais jurados criticaram os primórdios do Facebook, que foi concebido como uma plataforma para estudantes universitários avaliarem a beleza de mulheres, e citaram o caso de violação de privacidade da Cambridge Analytica em 2018. Eles também disseram que seria difícil aceitar o depoimento do bilionário, agendado para as próximas duas semanas, sem parcialidade.
A advogada da Meta, Phyllis Jones, apresentou objeções frequentes contra esses jurados. Ela afirmou ser “muito importante que ambos os lados comecem de forma justa, sem desvantagens, que analisem as evidências objetivamente e decidam”. Outros foram questionados pelos advogados da autora da ação pelo motivo oposto. “Gosto desse cara”, disse um admirador de Zuckerberg. “Sinto muito por não ter ações da Meta.”
“Empresas muito diferentes”
Os advogados da Alphabet estavam empenhados em garantir que sua plataforma, o YouTube, não fosse agrupada com a Meta. “Todos entendem que o YouTube e a Meta são empresas muito diferentes? Todos entendem que [Zuckerberg] não administra o YouTube?”, questionou Luis Li, advogado da plataforma de vídeos do Google.
Um homem afirmou ter percebido o potencial do YouTube para desencadear “doses instantâneas de dopamina” nos usuários por meio do recurso Shorts. Ele comentou que sua sobrinha passa muito tempo no TikTok, a plataforma que popularizou a rolagem infinita de vídeos ultracurtos. O caso não se concentrará no conteúdo — área em que as plataformas são amplamente protegidas pela legislação americana — mas sim no design dos algoritmos e recursos de personalização.
A Meta e o YouTube negam veementemente as acusações e, na sexta-feira, argumentaram sem sucesso que o juiz deveria declarar ilegítimas as alegações que comparam suas plataformas ao tabaco e a outros produtos viciantes.
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