A Polícia Federal investiga um possível de crime de gestão fraudulenta no Banco de Brasília (BRB), mas o caso não está relacionado à já conhecida aquisição de R$ 12,2 bilhões em carteiras do Banco Master. Isso já está sendo apurado no âmbito da Operação Compliance Zero. O novo inquérito diz respeito à compra de ações do BRB por Daniel Vorcaro, do Banco Master, Maurício Quadrado, seu antigo sócio, e João Carlos Mansur, da Reag, apurou o Valor.
Na noite de ontem, o banco atualizou seu formulário de referência na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), alegando que a medida foi uma consequência da investigação forense contratada pelo banco, conduzida pelo escritório Machado Meyer com apoio da Kroll. No documento, foi revelado que Mansur era um dos beneficiário por trás de fundos da gestora WNT, e assumiu, na pessoa física, uma fatia de 4,553% do banco do Distrito Federal (0,568% das ON e 12,237% das PN).
No mês passado, o Will Bank, controlado pelo conglomerado do Master, ficou inadimplente. Como consequência, a bandeira de cartões Mastercard executou garantias, o que a deixou com uma fatia de 6,920% (3,662% das ON e 13,200% das PN) no BRB. Com isso, ficou provado que o grupo de Vorcaro era cotista de alguns dos fundos acionistas da instituição financeira brasiliense, inclusive do Deneb (fundo administrado pela Master Corretora).
Apesar de o inquérito da PF citar Quadrado, ainda não está claro por meio de qual fundo ele detém a participação no BRB. A base de acionistas do banco ainda tem o fundo Borneo, com uma fatia de 3,164% (0,711% das ON e 7,895% das PN).
Juntas, as fatias de Mastercard (que antes da execução da garantia eram de Vorcaro), Mansur e do Borneo chegam a 14,637% do BRB. Elas estão majoritamente concentradas em ações PN, ou sejam, sem direito a voto, mas isso não significa que um grupo de acionistas desse tamanho não tenha influência nas decisões do banco.
Segundo o Valor apurou, chamou atenção da auditoria forense o fato de os aumentos de capital feitos pelo BRB em 2024 — que permitiram a entrada massiva desses fundos na base de acionistas — terem sido muito próximas de operações de compras de carteiras do BRB. Além disso, a operação, que inicialmente seria via oferta de ações (“follow-on”), acabou sendo feita via subscrição privada. No primeiro modelo, podem participar todos os tipos de investidores, enquanto no segundo só pode comprar ações quem já está na base de acionistas da empresa.
É nesse ponto que entra o possível crime de gestão fraudulenta. A PF vai investigar se gestores do BRB — inclusive o então presidente do banco, Paulo Henrique Costa — agiram para facilitar a entrada desses fundos na base acionária da instituição financeira. O objetivo é responder perguntas como: por que a oferta foi feita por subscrição privada e não “follow-on” (oferta subsequente de ações)? Como esses fundos se tornaram acionistas antes do aumento de capital para poder participar da subscrição privada? O BRB sabia quem eram os beneficiários finais desses fundos?
“Comprar e vender ações, em tese, não tem nenhuma irregularidade. Mas, se a PF instaurou inquérito, é porque viu fortes indícios de crime. Se as compras de ações foram feitas de forma fracionada, para tentar ocultar alguma coisa, tem o crime de lavagem de dinheiro. E o crime de gestão fraudulenta é para avaliar se executivos do BRB de alguma maneira intermediaram essa compra e venda de ações, não agindo assim nos melhores interesses do banco”, afirma uma fonte com conhecimento do assunto.
A lógica dos sócios do Master ao participar do aumento de capital do BRB era ajudar o banco do DF a expandir seu patrimônio e, assim, poder continuar comprando carteiras do próprio Master na outra ponta. Ou seja, Vorcaro colocava dinheiro no BRB, que, alavancado, comprava enormes volumes de carteiras do Master, segundo investigações em curso. Autoridades também suspeitam de que o aporte dos fundos no BRB contribuiu para ampliar a musculatura do banco antes do anúncio da tentativa de aquisição do Master, em março do ano passado.
Em última instância, como o Master pode ter usado dinheiro da venda de carteiras para participar desses aumentos de capital do BRB, a investigação apura se houve uma “circularização” dos recursos. Ou seja, no fim das contas o próprio BRB poderia estar financiando seu aumento de capital.
Procurados, Mansur, Quadrado e Paulo Henrique Costa não se manifestaram. A defesa de Vorcaro disse que o Master detinha participação acionária no BRB por meio de sua holding, devidamente registrada e dentro das regras do mercado. “A aquisição foi feita no âmbito de aumento de capital regularmente aprovado pelo Banco Central. Daniel Vorcaro segue colaborando com as autoridades para o esclarecimento dos fatos”, afirmou em nota.
Fontes próximas ao BRB disseram que o banco pediu aos administradores dos fundos a lista dos beneficiários finais, mas que, por uma série de idas e vindas e da estrutura em cascata dos fundos, só conseguiu esses nomes em abril de 2025. Foi aí que teria descoberto a participação de Mansur e informado ao Banco Central, apesar de não haver nenhuma irregularidade nisso. Os interlocutores afirmaram ainda que Vorcaro sempre negou ser cotista desses fundos e que sua participação só veio à tona mesmo com a execução das garantias da Mastercard.
Ainda assim, é difícil de acreditar que o surgimento dos nomes de Mansur e Quadrado, que publicamente tinham amplas relações com Vorcaro, não tenha no mínimo levantado suspeitas no BRB. Há muito tempo circulavam no mercado rumores sobre uma suposta fatia significativa dele no banco do DF. “Na época do primeiro aumento de capital, em julho de 2024, a Reag era a maior gestora independente do Brasil. Dizer que um fundo deles virou sócio era motivo de orgulho. Não se sabia tudo que se sabe hoje”, alega um observador.
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