Uma importante medida do risco soberano da Argentina caiu para o nível mais baixo em sete anos, à medida que as mudanças políticas do governo do presidente Javier Milei aproximaram o país do retorno aos mercados internacionais de dívida.
O spread, que agora está no nível mais baixo desde julho de 2018, caiu quase pela metade desde as eleições de meio de mandato na Argentina, no final de outubro, quando o partido de Milei venceu com uma margem maior do que a esperada e mais que dobrou o número de cadeiras no Congresso.
A retumbante vitória, que veio após dois meses turbulentos em que o Tesouro dos EUA interveio para ajudar a estabilizar os mercados locais, alimentou o otimismo para a segunda metade do mandato de Milei. Os investidores apostam que o aumento do apoio ajudará o líder libertário a implementar uma nova onda de desregulamentação, reformular as leis trabalhistas e tributárias e cortar gastos, pondo fim a décadas de crises cambiais e inadimplências da dívida.
Um novo conjunto de mudanças políticas está contribuindo para o otimismo. O governo anunciou em 15 de dezembro que estava flexibilizando as restrições à negociação de moeda estrangeira e planejando comprar até US$ 17 bilhões em reservas ao longo de 2026. As medidas abordaram algumas das principais preocupações dos investidores em relação à Argentina, que era vista como estando progredindo lentamente na reconstrução de suas escassas reservas internacionais.
“Isso deve ajudar a comprimir os spreads e aumentar significativamente a probabilidade de um retorno aos mercados internacionais de dívida em 2026”, disse Thierry Larose, gestor de portfólio da Vontobel. “Ao permitir uma leve depreciação real e vincular as compras de moeda estrangeira à demanda por dinheiro, o BCRA (banco central argentino) reduz o risco de sobrevalorização do peso.”
Mesmo com a redução dos spreads, o peso argentino se fortaleceu um pouco, chegando a 1.478 por dólar nesta segunda-feira (5), ante 1.491 antes das eleições de meio de mandato. A moeda até ganhou valor depois que o Tesouro dos EUA parou de intervir no mercado local.
A queda nos spreads também desencadeou uma onda de vendas de títulos corporativos e provinciais, com emissores argentinos correndo para capitalizar a forte demanda. Grandes empresas começaram a precificar títulos poucos dias após a vitória eleitoral de Milei, seguidas pelas províncias de Santa Fé e Buenos Aires e por uma emissão soberana sob a lei local em dezembro.
Embora os spreads tenham caído drasticamente após as eleições, eles permaneceram em grande parte acima de 600 pontos-base nas últimas três semanas. Isso levou os investidores a argumentarem que novos catalisadores eram necessários para reduzir ainda mais o risco-país — aproximando-o do nível de 500 pontos-base que as autoridades argentinas consideram ideal para uma emissão de títulos internacionais. Analistas observaram que os spreads poderiam cair ainda mais se o governo fortalecesse sua posição política, obtivesse a aprovação de reformas importantes no Congresso e adotasse um regime cambial mais flexível.
Cresce a expectativa de que o governo Milei siga o exemplo com um título em dólares emitido sob a legislação estrangeira — o primeiro desde a reestruturação de 2020. O governo, que recentemente emitiu dívida em dólares sob a legislação local, em um evento visto como um teste para a retomada dos empréstimos no exterior, tem cerca de US$ 4,5 bilhões em pagamentos de títulos em circulação com vencimento em janeiro e um valor semelhante para julho.
Ainda assim, o Ministro da Economia, Luis Caputo, sinalizou recentemente que o governo não pretende vender títulos no exterior em janeiro, e as autoridades deram um passo importante na semana passada rumo a um acordo de recompra (repo) com bancos internacionais que financiaria os pagamentos da dívida em janeiro.
“A redução do risco-país é fundamental — pode permitir que a Argentina recupere o acesso aos mercados internacionais e role os próximos vencimentos da dívida”, disse Fernando Marengo, economista-chefe da consultoria americana BlackTORO.
Os investidores, porém, permanecerão cautelosos. A Argentina conseguiu manter o risco-país abaixo de 600 pontos-base durante o governo liberal do ex-presidente Mauricio Macri, com o indicador atingindo uma mínima próxima a 350 pontos-base em 2017. A onda de reformas de Macri, contudo, terminou abruptamente com a evaporação do apoio ao seu governo, minando suas promessas de austeridade e, por fim, forçando-o a buscar um resgate recorde do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A forte turbulência do mercado observada nos meses que antecederam as eleições de meio de mandato também serviu como um lembrete contundente de quão rapidamente o sentimento em relação à Argentina pode mudar. O peso, segundo diversos investidores, ainda está sobrevalorizado, e a luta de Milei contra a inflação — que impulsionou sua popularidade na primeira metade de seu mandato — pode se tornar mais difícil com o afrouxamento dos controles cambiais.
“A janela de oportunidade é curta”, disse David Austerweil, gestor adjunto de portfólio da Van Eck Global. “Este é o melhor momento possível para eles flexibilizarem a taxa de câmbio.”
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