Início Brasil Conexões com Lula e aliados ligam Master ao Executivo

Conexões com Lula e aliados ligam Master ao Executivo

A investigação sobre o Banco Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro e passou a representar um problema político direto para o governo Luiz Inácio Lula da Silva. As possíveis conexões do empresário Daniel Vorcaro com integrantes do Executivo, contratos públicos firmados com empresa da qual ele é sócio e a atuação de figuras próximas ao governo colocaram o Planalto no centro do debate sobre conflitos de interesse e transparência institucional.

O caso ganhou dimensão política com as suspeitas de conflito de interesses do ministro Dias Toffoli, que conduz o caso no Supremo Tribunal Federal, e do ministro Alexandre de Moraes, pois sua mulher fechou um contrato milionário para defender o Master como advogada.

O escândalo se espalhou e atingiu o Poder Executivo quando vieram à tona neste mês com as revelações de: um encontro de Lula com Vorcaro fora da agenda oficial, a atuação do ex-ministro Guido Mantega como interlocutor do banqueiro, a consultoria jurídica prestada ao Banco Master pelo ex-ministro Ricardo Lewandowski e a proximidade do senador Jaques Wagner, do PT, com personagens ligados ao grupo. Embora não haja acusações formais contra esses nomes, as relações expostas elevaram a pressão política sobre o governo.

Nos bastidores do Congresso, parlamentares da oposição articulam pedidos para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), enquanto aliados tentam conter o desgaste e reforçar o discurso de que as investigações seguem de forma técnica e independente.

Para o jurista Fabrício Rebelo, o fato de o caso tramitar sob sigilo e em um formato considerado por ele atípico abre espaço para exploração política. Segundo ele, esse cenário pode reacender o discurso de combate à corrupção e mobilizar setores da oposição.

“Por se tratar de mais um procedimento atípico e coberto por sigilo, se torna natural a exploração política do caso com o fundamento de estar havendo algum tipo de proteção aos envolvidos. Essa leitura tem potencial para retomar a pauta de combate à corrupção no país e mobilizar novamente a oposição, inclusive com manifestações populares, até então adormecidas. Caso o episódio ainda se estenda, ele também deverá ser recorrente na campanha eleitoral deste ano”, afirma.

As suspeitas sobre o Banco Master começaram a ganhar dimensão pública no segundo semestre de 2025, quando órgãos de controle e o Banco Central identificaram inconsistências contábeis relevantes na carteira de ativos da instituição. As apurações apontaram indícios de operações lastreadas em créditos considerados inexistentes ou com valor inflado, negociados com outras instituições financeiras.

O Banco Master virou alvo de uma investigação de grande porte a partir de novembro de 2025, quando autoridades federais passaram a apurar um rombo estimado em até R$ 50 bilhões envolvendo a venda de créditos inexistentes ao Banco de Brasília (BRB) e o uso irregular do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A ofensiva resultou na deflagração da Operação Compliance Zero. O empresário Daniel Vorcaro chegou a ser preso, mas foi posteriormente solto mediante medidas cautelares e está em prisão domiciliar.

Com a menção a autoridades com foro, parte das investigações foi remetida ao STF. A partir desse momento, registros de reuniões, contratos e relações profissionais passaram a ser analisados também sob o prisma político.

Vorcaro teve encontro fora da agenda e relações com Lula

Revelações recentes divulgadas pela CNN Brasil apontaram que, em dezembro de 2024, o presidente Lula recebeu Daniel Vorcaro em uma reunião que não constava da agenda oficial do Palácio do Planalto, com a presença de ministros e interlocutores políticos. A participação de Vorcaro em um encontro reservado com integrantes do Executivo voltou ao centro do debate quando a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, confirmou que a reunião ocorreu e defendeu que “é inerente ao cargo” receber presidentes de bancos.

O encontro de 2024, que não constava na agenda oficial do presidente, teve ainda a participação de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento de governos petistas, do empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master, e de Gabriel Galípolo, que à época havia sido indicado por Lula para assumir a presidência do Banco Central.

Os temas discutidos no encontro não vieram a público. O banqueiro Vorcaro ainda esteve outras três vezes no Palácio do Planalto, mas os detalhes dessas visitas não foram divulgados.

Lula também participou da inauguração da fábrica da Biomm em Nova Lima (MG), empresa de biotecnologia da qual Vorcaro é acionista, em abril de 2024. A Biomm firmou com o governo contratos para o fornecimento de insulina ao SUS que somam R$303,65 milhões. A celebração da obra — e os contratos assinados — voltaram ao centro do debate político quando, em janeiro de 2026, o presidente passou a criticar publicamente Vorcaro, rotulando-o de “golpista”.

À Gazeta do Povo, na última quinta-feira (29), o Ministério da Saúde afirmou que a parceria para produção de insulina no Brasil envolvendo a Biomm começou em 2013, “mais de uma década e sete anos antes da participação do Fundo de Investimento Cartago na empresa”. A pasta ressaltou ainda que cumpriu estritamente as regras da Lei de Licitações, “vencendo a empresa que ofertou o menor preço”. “Os medicamentos foram entregues pela Biomm, primeira colocada no pregão, no prazo e qualidade estabelecidos pelo contrato”, completou.

Já a Biomm respondeu que “não permite interferência direta por parte de acionistas individuais”.

Uma reportagem publicada pela CNN Brasil informou que o presidente Lula também teria se reunido com Dias Toffoli, relator da investigação no STF, em dezembro do ano passado, em um encontro que não constou da agenda oficial do Planalto e contou com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A conversa reservada teria ocorrido em Brasília em meio às primeiras fases de sigilo decretado no inquérito. Auxiliares do presidente e aliados avaliam que um novo encontro entre Lula e Toffoli pode ocorrer em meio às críticas sobre a condução do caso.

Para o jurista Miguel Vidigal, a situação é delicada para o governo. Ele afirma que a simples possibilidade de um encontro entre o presidente da República e o relator do caso no STF para tratar do tema seria algo inédito e sensível do ponto de vista da separação entre os Poderes.

Vidigal também aponta que a investigação pode levantar questionamentos sobre falhas de regulação financeira e diz que o ritmo acelerado das diligências determinadas por Toffoli pode gerar questionamentos futuros sobre a validade processual.

“Celeridade pode evitar destruição de provas, mas também pode criar a percepção de condução excessiva, o que afeta a credibilidade”, afirma. Ele lembra que decisões do STF de concentrar investigações na Corte têm precedentes recentes, mas ressalta que a medida é excepcional e sempre gera debate sobre o princípio do juiz natural e o duplo grau de jurisdição.

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Guido Mantega e Jaques Wagner: consultoria e encontros políticos

Outro nome que passou a circular no contexto das apurações é o do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Ele foi mencionado em relatos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, no âmbito das investigações que analisam a rede de relações políticas e institucionais mantidas pelo banco.

Segundo denúncia publicada pelo site Metrópoles, Mantega teria atuado como consultor da instituição com remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão, em articulação que teria contado com a indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT).

De acordo com a publicação, o ex-ministro teria participado de tratativas relacionadas à tentativa de venda do banco ao Banco de Brasília (BRB) e permanecido na função até semanas antes de o Banco Central decretar a liquidação da instituição, em novembro. Os pagamentos, ainda segundo a denúncia, teriam somado ao menos R$ 11 milhões.

A informação ganhou peso político por envolver um ex-integrante de destaque dos governos do PT e por contrastar com declarações recentes do presidente Lula, que classificou como “golpe” a atuação do Daniel Vorcaro. O episódio também é relacionado ao período posterior à desistência do governo em indicar Mantega para o conselho de administração da Vale, movimento que havia gerado reação no mercado à época.

Ao Metrópoles, Mantega negou irregularidades e afirmou que sua atuação foi técnica e dentro da legalidade. A defesa dele alegou que todas as consultorias foram técnicas e regulares, e que não há provas até agora de que sua participação esteja ligada a favorecimentos ilegais.

No mesmo contexto, o nome de Jaques Wagner também passou a ser associado às articulações em torno do banco. Segundo relato do próprio senador, um executivo ligado à instituição, Augusto Lima, o teria procurado em busca de uma indicação profissional, ocasião em que Wagner afirmou ter sugerido o nome do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que à época deixava a Corte. Wagner declarou estar “tranquilo” em relação à sua ligação com Lima.

O senador também confirmou conhecer Daniel Vorcaro, mas minimizou a relação, afirmando que o contato não teria maiores implicações. Em declarações recentes, Wagner defendeu que uma eventual delação de Vorcaro — ainda não confirmada — poderia contribuir para esclarecer os fatos e possíveis conexões políticas relacionadas ao caso. Até o momento, ele sustenta que não teve participação em decisões financeiras ou operacionais ligadas à instituição.

Ricardo Lewandowski: consultoria e possível conflito de interesse

Outro fator que ampliou a sensibilidade política do caso surgiu a partir de revelações de ligações entre Vorcaro e advogados ligados ao ex-membro do STF e ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Uma dessas denúncias foi feita pela Gazeta do Povo envolvendo o advogado Enrique de Abreu Lewandowski, filho do ex-ministro.

Segundo a reportagem, Enrique atuou no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em dezembro de 2025, em favor de uma empresa investigada por fraudes em empréstimos consignados a servidores públicos de Mato Grosso e apontada como fornecedora de créditos que foram revendidos e posteriormente integraram carteiras do Banco Master.

À época, Ricardo Lewandowski ainda ocupava o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, função da qual se desligou em 8 de janeiro deste ano.

Procurado pela Gazeta do Povo, Ricardo Lewandowski afirmou não ter “qualquer conhecimento sobre eventual recurso no STJ” e declarou que se afastou do exercício da advocacia e suspendeu seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conforme determina a legislação. A assessoria de Enrique Lewandowski também foi procurada, mas não houve retorno até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

A coincidência temporal não configura ilegalidade, mas ganhou relevância diante das apurações sobre o Banco Master. Uma reportagem do Metrópoles mostrou que o grupo de Daniel Vorcaro teria pago cerca de R$ 5 milhões ao escritório ligado à família do ex-ministro entre 2023 e 2025 – período que abrangeu o período em que Lewandowski foi ministro de Lula..

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse na quarta-feira (28) que o governo estava ciente da consultoria prestada por Lewandowski, argumentando que não havia ilegalidade em sua existência. Segundo ela, o ministro teria informado ao presidente sobre seus contratos privados ao ser convidado e seguido a legislação ao se afastar.

Críticos do governo levantaram a possibilidade de Lewandowski ter deixado o Ministério da Justiça para evitar que Lula fosse afetado pelo escândalo do Master, mas a possibilidade foi negada por governistas.

Juristas veem risco de desgaste institucional

As investigações sobre o Master seguem em curso, com compartilhamento de dados entre PF, Ministério Público e instâncias judiciais. A expectativa, nos bastidores, é que novas fases da apuração tragam ainda mais elementos que clarifiquem ou aprofundem o grau de envolvimento das figuras citadas em episódios anteriores e em desdobramentos mais recentes do Caso Master.

Fabrício Rebelo questiona o ritmo das diligências determinado no inquérito. Ele avalia que a combinação entre prazos curtos impostos à Polícia Federal e a ausência, até o momento, de conclusão de perícias técnicas pode afetar a percepção pública sobre a investigação.

“Sem nenhuma dúvida. É um procedimento que vem subvertendo toda a lógica da investigação penal, notadamente a partir da lacração das provas, algo que não faz absolutamente nenhum sentido jurídico. Quando a isso se soma uma série de determinações heterodoxas, o questionamento quanto à isenção e aos objetivos da investigação se torna mais do que natural, mas verdadeiramente estimulado”, diz.

As críticas se somam a outras avaliações que apontam para o risco de desgaste institucional caso o processo seja visto como excessivamente acelerado ou conduzido fora dos padrões tradicionais da investigação criminal.

Já Juan Arruda destaca que a ausência, até o momento, de laudos periciais conclusivos e a imposição de prazos curtos à Polícia Federal podem afetar a percepção pública sobre a solidez da apuração. “Em um Estado de Direito, não basta investigar rápido; é preciso investigar bem”, diz. Segundo ele, quando a exceção começa a se repetir, cresce a preocupação com a previsibilidade do sistema de Justiça e com a confiança nas instituições.

A reportagem procurou a Presidência da República para se manifestar sobre as reuniões mencionadas e sobre a relação de integrantes do governo com personagens ligados ao Banco Master, mas não houve resposta até a conclusão desta reportagem. O espaço segue aberto para atualização.

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