A pirâmide financeira que ajudou a alavancar cerca de R$ 45 bilhões em estoques de créditos de carbono para o Banco Master e empresas ligadas ao esquema, hoje sob investigação da Polícia Federal, acendeu o alerta sobre a regulamentação do mercado de carbono, um dos pilares da política climática do governo Lula.
O escândalo expôs o descompasso entre a promessa oficial de credibilidade internacional e a realidade de um mercado que cresceu por anos sem regras claras e fiscalização efetiva.
A aposta da gestão Lula, ao sancionar em dezembro de 2024 a lei que estabeleceu as bases do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), era transformar o mercado de carbono em um novo motor da economia e, no futuro, posicionar o Brasil no centro das negociações globais desses ativos.
Na prática, a proposta previa colocar preço sobre a emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO₂), retirar o mercado da informalidade e criar segurança jurídica para que a redução de emissões se convertesse em um ativo econômico confiável e fiscalizado pelo Estado.
A lógica é simples: empresas que poluem menos do que o limite legal podem vender o crédito correspondente à redução permitindo que outras, com emissões acima do teto, comprem esses créditos para cumprir suas metas.
Para viabilizar o sistema, o Ministério da Fazenda criou, no fim de 2025, uma secretaria extraordinária encarregada de organizar as regras do setor e acelerar a implementação da lei. O escândalo envolvendo o Banco Master, porém, mostrou que o mercado correu à frente do Estado.
Enquanto o arcabouço regulatório — cuja implementação completa está prevista apenas para 2030 — ainda era desenhado, créditos ambientais baseados em certificações frágeis, terras públicas e ativos de difícil verificação já circulavam livremente. Esses ativos, precificados em bilhões de reais, foram usados para inflar fundos de investimento ligados ao Master a partir de 2022.
“O caso é emblemático, porque a fragilidade não esteve apenas na conduta de agentes privados, mas em uma falha sistêmica de coordenação estatal”, afirma Carlos Henrique, CEO da fintech Start Pay.
“Enquanto o ativo era tratado apenas sob a ótica ambiental, escapava do escrutínio rigoroso do mercado de capitais; quando passou a circular como instrumento financeiro, não havia um arcabouço capaz de verificar seu lastro fundiário com a mesma agilidade da engenharia financeira.”
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Esquema do Master tinha créditos falsos em áreas da União na Amazônia
O crédito de carbono reconhecido internacionalmente é vinculado à redução comprovada de emissões. Já o chamado “estoque de carbono”, usado pelo Master, representa apenas uma estimativa da quantidade de carbono existente em determinada área, sem garantia de conversão em ativo vendável ou lastro reconhecido.
Segundo reportagens da Folha de S.Paulo, projetos ambientais baseados em estoques de carbono falsos foram usados para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados ao Master, envolvendo terras públicas da União na Amazônia e valores bilionários sem lastro real.
Familiares de Daniel Vorcaro participaram desde a origem do plano de explorar créditos de carbono em áreas públicas por meio de uma complexa engenharia financeira envolvendo fundos administrados pela Reag Investimentos, corretora liquidada pelo Banco Central no dia 15 de janeiro sob suspeita de gerir aplicações abastecidas com recursos do PCC.
No centro da investigação está a Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí, no sul do Amazonas. Documentos indicam que a área pertence à União, é destinada à reforma agrária e não poderia ser explorada comercialmente por empresas privadas.
Mesmo assim, em agosto de 2022 a Alliance Participações e Investimentos Ltda. — controlada por Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, pai e irmã do banqueiro — firmou contrato de opção de compra das terras com um suposto proprietário local, Marco Antônio de Melo.
Pelo acordo, a Alliance ficaria com 80% das unidades de carbono vinculadas à fazenda, enquanto o intermediário José Antônio Ramos Bittencourt teria os 20% restantes.
A partir dessa estrutura, foi estimado um volume de 168,8 milhões de unidades de “estoque de carbono”, um ativo sem reconhecimento formal no mercado internacional. Esses números foram convertidos em cotas de fundos ligados à Reag Investimentos.
Com a incorporação desses valores aos balanços, empresas como Global Carbon e Golden Green tiveram seus ativos reavaliados em mais de R$ 45,5 bilhões. Documentos analisados indicam que as unidades não possuíam certificação reconhecida, metodologia validada ou referência de preço confiável.
Apesar das disputas fundiárias e da ausência de lastro reconhecido, auditorias e consultorias de grande porte participaram da precificação e da atualização contábil dos estoques de carbono vinculados às empresas, sem registrar ressalvas sobre o litígio envolvendo sua origem.
As empresas afirmaram que o inventário de carbono foi realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), que teria estimado a existência das quase 170 milhões de toneladas de CO₂ na área. Em 2020, a Ernst & Young validou a metodologia e fixou o valor unitário em R$ 129,30. Nos anos seguintes, PwC e Crowe elevaram os valores — o aumento foi de 32% em dois anos —, levando o total contabilizado a R$ 14,6 bilhões.
Caso Master abalou confiança no mercado de carbono
O caso abriu uma fratura na confiança institucional no mercado de carbono brasileiro e colocou sob os holofotes os mecanismos de fiscalização e a capacidade do Estado de dar lastro a ativos ambientais. O mercado ainda aguarda uma resposta robusta do governo federal e dos órgãos reguladores.
Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o caso resultou na abertura de um inquérito administrativo em meio à troca no comando do órgão. João Accioly Neto assumiu interinamente a presidência após a saída de Otto Lobo, sob crescente pressão política.
Accioly disse à Gazeta do Povo que determinou um levantamento para mapear “o que foi feito em relação ao Master, o que já foi concluído e o que está em andamento”. Segundo ele, a análise exige reconstruir o percurso do caso, incluindo reclamações de cotistas, falhas na cadeia de controle e pareceres de auditorias independentes.
O presidente interino afirmou que a responsabilização pode alcançar gestores, consultorias e outros agentes envolvidos. “Se você participa de uma operação fraudulenta no mercado de capitais, automaticamente se coloca no campo de atuação da CVM”, disse. Ele minimiza, por ora, falhas do Estado, mas garante que “todas as frentes serão investigadas e os responsáveis punidos”.
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