“Este é o nosso hemisfério — e o presidente [Donald] Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada”, afirmou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, após a operação em que o ditador venezuelano Nicolás Maduro foi capturado no sábado passado (3).
A gestão Trump tem deixado claro que a operação fez parte dos esforços para reduzir a influência da China e da Rússia (aliadas de Maduro) no Hemisfério Ocidental, e desde então uma teoria voltou a circular nas redes sociais.
Ilustrações mostram o mundo dividido em três esferas de influência, com os Estados Unidos dominando o Hemisfério Ocidental; a Rússia controlando o leste europeu e a África; e a China “tomando” a Ásia.
A mais recente doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, divulgada antes da captura de Maduro, deu vazão a esta teoria, ao pregar um retorno à Doutrina Monroe, do século XIX, por meio da qual os Estados Unidos davam prioridade às Américas na sua política externa.
Na quinta-feira (8), no seu discurso anual em Paris aos embaixadores franceses pelo mundo, o presidente da França, Emmanuel Macron, corroborou a tese das esferas de influência das grandes potências globais, sem que haja interferência no espaço “dominado” pelas outras.
“As instituições do multilateralismo funcionam com cada vez menos eficácia. Encontramo-nos em um mundo de grandes potências com uma verdadeira tentação de dividir o mundo”, disse Macron.
Especialistas, porém, divergem a respeito do argumento de que EUA, China e Rússia estariam dispostos a “dividir” o planeta.
Em artigo para a revista The Atlantic publicado após a captura de Maduro, a jornalista e escritora americana Anne Applebaum lembrou que em 2019 uma funcionária do Conselho de Segurança Nacional da primeira gestão Trump, Fiona Hill, disse a uma comissão da Câmara dos Representantes que a Rússia estaria fazendo pressão para a criação de esferas de influência e teria oferecido uma espécie de “troca” da Venezuela, a aliada mais próxima de Moscou na América Latina, pela Ucrânia, que seria invadida em 2022.
“Desde então, a noção de que as relações internacionais devem promover o domínio das grandes potências, e não valores universais ou redes de aliados, se espalhou de Moscou para Washington”, escreveu Applebaum.
“A nova estratégia de segurança nacional do governo [Trump] delineia um plano para dominar as Américas, descrevendo enigmaticamente a política dos EUA no Hemisfério Ocidental como ‘engajamento e expansão’ e minimizando as ameaças da China e da Rússia. Trump também fez ameaças [de anexação] à Dinamarca [da Groenlândia], ao Panamá [cujo canal poderia ser retomado] e ao Canadá [que o presidente republicano disse querer transformar no 51º estado americano], todos aliados cuja soberania agora desafiamos”, afirmou a jornalista e escritora.
- Trump diz que Venezuela agora é aliada e que se encontrará com representantes do país
Gideon Rachman, colunista do jornal britânico Financial Times, foi na mesma linha, ao escrever em artigo que a Doutrina Donroe (um trocadilho com o primeiro nome do presidente americano), “combinada com as iniciativas de Trump em direção a uma reaproximação com a Rússia e a China, sugere que ele se sente atraído por uma ordem mundial organizada em torno das esferas de influência das grandes potências”.
“Tanto a Rússia quanto a China condenaram a deposição de Maduro. Mas [o ditador chinês] Xi Jinping sacrificaria de bom grado a influência chinesa na Venezuela se isso significasse que Pequim teria carta branca em relação a Taiwan [que a China considera parte do seu território e planeja incorporar]. A Rússia faria o mesmo acordo em relação à Ucrânia”, pontuou Rachman.
Porém, em entrevista à Gazeta do Povo, o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena disse acreditar que “há um pouco de teoria da conspiração” nos comentários sobre “divisão do mundo”.
O especialista destacou que, embora Trump esteja tentando ampliar sua proeminência na América Latina e no Hemisfério Ocidental, conforme explicitado na nova política de segurança nacional, o republicano não está tentando reduzir a influência da China e da Rússia apenas nessas regiões, mas no mundo inteiro.
“Os Estados Unidos não querem a China invadindo Taiwan, não querem a China ampliando seu território ou sua influência em países que consideram aliados, como a Índia e o Japão. Da mesma forma, não querem a Rússia tomando toda a Ucrânia”, justificou.
“Na medida em que puderem minar potências ascendentes, e a grande potência ascendente hoje é a China, ou mesmo potências que, embora estejam em decadência, ainda são grandes, como a Rússia, eles [Estados Unidos] o farão”, disse Lucena.
“Então, de certa maneira, eu concordo que faz sentido dizer que o Trump quer, sim, aumentar sua área de influência na América Latina e no Hemisfério Ocidental. Mas é muito difícil acreditar que exista um plano para dividir o mundo em três áreas e que essas potências estariam organizando isso entre si. Acho que aí já é demais”, concluiu o especialista.
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