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Banco do Japão inicia discretamente venda de ETFs que deverá durar um século | Finanças

O Banco do Japão (BoJ, o banco central) iniciou a venda de seus ETFs acumulados, avaliados em 95 trilhões de ienes (US$ 610 bilhões), um processo lento que provavelmente deixará o impacto de seu enorme programa de afrouxamento monetário persistindo por décadas.

Em 3 de fevereiro, dia em que o índice referencial da Bolsa de Tóquio, o Nikkei, subiu mais de 2 mil pontos, fechando em sua maior alta histórica, o BoJ divulgou dados mostrando que havia se desfeito de ETFs com um valor contábil de 5,3 bilhões de ienes nos últimos 10 dias de janeiro, marcando um início discreto para o processo de liquidação.

De acordo com a decisão de setembro de se desfazer de seus ETFs, o banco central planeja vender cerca de 330 bilhões de ienes por ano, com base no valor contábil. A venda de todas as suas participações, com um valor contábil de 37 trilhões de ienes, levaria 112 anos nesse ritmo.

Esse ritmo extremamente lento, com o objetivo de evitar turbulências nos mercados, fará com que o banco central continue sendo um grande acionista de empresas japonesas por muitos anos.

Shingo Ide, do NLI Research Institute, estima que o Banco do Japão detinha participações indiretas superiores a 5% em 541 empresas por meio de seus ETFs no fim de janeiro. Possuía mais de 20% da fabricante de equipamentos para testes de chips Advantest e da fornecedora de componentes eletrônicos TDK, e entre 16% e 17% da Fast Retailing (operadora da Uniqlo), da desenvolvedora de videogames Konami Group e da fabricante de robôs Fanuc.

O BoJ delega o exercício de seus direitos de voto às empresas que administram os ETFs. Isso não significa que se mantenha completamente em silêncio sobre a governança corporativa. Mas não está claro se uma grande empresa pode ser alvo de medidas disciplinares se não houver ameaça de venda ativa de suas ações.

O banco central também se tornou um grande proprietário indireto de imóveis urbanos com a aquisição de fundos imobiliários.

Na primavera de 2024, a maior parte dos ativos imobiliários do BoJ estava concentrada nos 23 distritos centrais de Tóquio, de acordo com Ikuko Fueda-Samikawa, diretora de pesquisa financeira do Centro Japonês de Pesquisa Econômica.

A pesquisa de Fueda-Samikawa relacionou as compras de Reits (Fundos de Investimento Imobiliário) pelo BoJ ao aumento dos aluguéis de escritórios e ao incremento dos empréstimos ao setor imobiliário por bancos regionais. A venda de todos os seus ativos, totalizando 650 bilhões de ienes com base no valor contábil, levará 130 anos no ritmo atual — ainda mais tempo do que os ETFs —, fornecendo suporte persistente a um mercado imobiliário superaquecido.

O BoJ começou a comprar ETFs em dezembro de 2010, quando Masaaki Shirakawa era o presidente do banco. O índice Nikkei estava então em torno de 10 mil pontos — um quinto do seu nível atual. O objetivo do banco era incentivar os investidores a assumirem riscos e quebrar o ciclo vicioso de deflação e preços fracos das ações, que prejudicava o sentimento empresarial.

Sob o governo de Haruhiko Kuroda, sucessor de Shirakawa, o Banco do Japão (BoJ) intensificou as compras de ETFs como parte de um programa massivo de afrouxamento monetário para tirar o Japão da deflação. A decisão de começar a vender veio com uma guinada para a normalização sob o atual governo de Kazuo Ueda.

Os membros do conselho de política monetária estão divididos sobre como avaliar o impacto das compras. Os defensores argumentam que elas impulsionaram os preços das ações, reforçando os esforços de estímulo econômico do governo e ajudando a combater a grave deflação de ativos. Os céticos dizem que o fato de os padrões de compra do BoJ serem bem conhecidos pelos investidores tornou suas ações irrelevantes.

Mesmo no mercado, elogios incondicionais à política são raros.

Quando o BoJ aumentou suas compras anuais de ETFs de 1 trilhão de ienes para 3 trilhões de ienes e, posteriormente, para 6 trilhões de ienes, aliviou a pressão de baixa sobre os preços das ações, disse Ide. Mas “os efeitos duraram, no máximo, três meses”, afirmou. “Enquanto isso, teve o efeito colateral de privar os investidores de oportunidades de compra a preços baixos e distorcer a formação de preços.”

Na época da decisão do Banco do Japão (BoJ) de começar a comprar ETFs e REITs, Shirakawa alertou que “se o público não entender que esta é uma medida temporária e extraordinária, há o perigo de que ela se torne permanente” — um risco que se concretizou.

“Ao responder a uma crise, o banco central dos Estados Unidos [Fed] pode agir com ousadia e parar imediatamente”, disse um alto funcionário do BoJ, acrescentando que a questão dos ETFs é “um exemplo clássico da incapacidade do BoJ de fazer isso”.

O BoJ decidiu encerrar novas compras de ETFs quando, em março de 2024, normalizou a política monetária. Mas quando o índice Nikkei sofreu sua maior queda em um único dia em agosto daquele ano, devido a aumentos nas taxas de juros e incerteza econômica nos Estados Unidos, altos funcionários do BoJ levantaram a possibilidade de retomar as compras.

O próximo século poderá trazer novos choques nos preços dos ativos, o que poderá levar o banco central a voltar a comprar ativos, aumentando o risco de os ETFs se tornarem um elemento permanente no seu balanço.

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