A empresa australiana Lynas Rare Earths, maior produtora não chinesa de terras raras do mundo, anunciou seus planos de iniciar a produção de terras raras pesadas em sua unidade industrial na Malásia. A iniciativa representa um passo estratégico para oferecer uma alternativa viável ao domínio da China no mercado global desses minerais críticos, utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa e dispositivos eletrônicos de alta tecnologia.
Segundo comunicado da empresa, a planta de processamento de terras raras pesadas será instalada no complexo Lynas Advanced Materials Plant (LAMP), localizado em Gebeng, no estado de Pahang, Malásia. A produção deve incluir elementos como disprósio (Dy) e térbio (Tb), essenciais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. A previsão é que as operações comerciais comecem ainda em 2025, sujeitas a aprovações regulatórias.
O que são terras raras pesadas?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, luminescentes e condutoras únicas. Elas são divididas em terras raras leves e pesadas. As terras raras pesadas — como disprósio, térbio, érbio, itérbio e ítrio — são mais escassas na crosta terrestre e significativamente mais difíceis de extrair e processar. Esses elementos são indispensáveis na produção de ímãs de alto desempenho, lasers, equipamentos de imageamento médico, reatores nucleares e sistemas de orientação de mísseis.
A demanda global por terras raras pesadas vem crescendo rapidamente impulsionada pela transição energética e pela eletrificação do transporte. Um único veículo elétrico pode conter até 2 kg de terras raras, sendo uma parte significativa de elementos pesados nos ímãs do motor.
Lynas e sua trajetória na Malásia
A Lynas opera na Malásia desde 2012, quando inaugurou o LAMP após investimentos bilionários. A fábrica é a maior instalação de processamento de terras raras fora da China e tem capacidade para produzir milhares de toneladas de óxidos de terras raras por ano. Apesar de controvérsias ambientais e protestos de grupos locais preocupados com resíduos radioativos, a empresa obteve licenças renovadas do governo malaio, condicionadas a rigorosos planos de gestão de rejeitos.
A produção de terras raras pesadas representa uma expansão significativa das operações atuais da Lynas, que até então se concentrava majoritariamente na separação de terras raras leves, principalmente o par neodímio-praseodímio (NdPr). Com a nova linha de processamento, a empresa busca capturar uma fatia maior da cadeia de valor e atender à demanda crescente por elementos pesados.
Domínio chinês e a necessidade de alternativas
A China controla cerca de 60% da mineração global de terras raras e responde por aproximadamente 85-90% do processamento em todo o mundo. No segmento de terras raras pesadas, o domínio é ainda mais acentuado, com a China sendo praticamente a única fonte significativa. Essa concentração geopolítica levanta preocupações de segurança de suprimento para países como Estados Unidos, Austrália, Japão e membros da União Europeia.
Nos últimos anos, Pequim tem utilizado o controle sobre terras raras como instrumento de pressão comercial e diplomática, impondo cotas de exportação e restrições a tecnologias de processamento. A pandemia de COVID-19 e as tensões com Taiwan reforçaram a percepção de risco. Como resposta, governos ocidentais têm incentivado a diversificação da cadeia de suprimentos por meio de investimentos em minas e refinarias fora da China.
A Lynas já é um pilar dessa estratégia. A empresa recebeu financiamento do Departamento de Defesa dos Estados Unidos para construir uma planta de separação de terras raras leves no Texas, e agora avança na produção de pesadas na Malásia. Paralelamente, a Austrália também vem apoiando a expansão da Lynas em seu território, com uma nova planta de processamento em Kalgoorlie (Austrália Ocidental).
Impactos econômicos e geopolíticos
A decisão da Lynas de produzir terras raras pesadas na Malásia reforça o papel do Sudeste Asiático como hub alternativo de processamento de minerais críticos. A Malásia, que já abriga a maior refinaria não chinesa, se beneficia com a geração de empregos qualificados e transferência de tecnologia. No entanto, a dependência de licenças ambientais e a pressão da opinião pública local continuam sendo desafios operacionais.
Para o mercado global, a nova oferta de disprósio e térbio fora da China pode contribuir para estabilizar preços e reduzir a volatilidade. Atualmente, os preços desses elementos são fortemente influenciados por decisões unilaterais de Pequim. A entrada de um novo player competitivo tende a aumentar a segurança de suprimento para fabricantes de ímãs, turbinas eólicas e veículos elétricos no Ocidente.
Desafios ambientais e regulatórios
O processamento de terras raras gera grandes volumes de resíduos contendo elementos radioativos naturais, como tório e urânio. No caso da Lynas na Malásia, a gestão desses resíduos tem sido motivo de controvérsia. A empresa construiu um tanque de armazenamento de resíduos (Residue Storage Facility) e se comprometeu a implementar um plano de remoção para uma instalação permanente fora da Malásia até 2029. O governo malaio tem monitorado de perto o cumprimento dessas condições.
Para a nova linha de terras raras pesadas, a Lynas afirma que utilizará tecnologia de separação mais eficiente e que o volume de resíduos será proporcionalmente menor. Organizações ambientalistas, no entanto, pedem maior transparência e auditorias independentes.
Principais aplicações das terras raras pesadas
- Disprósio (Dy): adicionado a ímãs de neodímio para aumentar a resistência a altas temperaturas, essencial em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas offshore.
- Térbio (Tb): usado em ímãs magnetostrictivos e em dispositivos de estado sólido, além de lâmpadas fluorescentes e telas.
- Érbio (Er): empregado em amplificadores ópticos (fibras) e em lasers médicos.
- Ítrio (Y): componente de fósforos para LEDs e em supercondutores.
Perguntas frequentes
Por que as terras raras pesadas são tão importantes?
Elas são insubstituíveis na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, que estão no coração de motores elétricos, geradores eólicos, discos rígidos, sistemas de áudio e equipamentos militares. Sem disprósio e térbio, por exemplo, ímãs de neodímio perdem suas propriedades magnéticas em temperaturas elevadas.
O que diferencia a produção de terras raras pesadas da produção de leves?
As terras raras pesadas são menos abundantes e requerem processos de separação mais complexos e caros, geralmente envolvendo múltiplas etapas de extração por solventes. A infraestrutura necessária é mais sofisticada e o investimento é maior.
A Lynas já enfrentou problemas ambientais na Malásia?
Sim. Desde o início das operações, a Lynas foi alvo de protestos sobre o armazenamento de resíduos radioativos. A empresa recebeu licenças condicionais, com exigências de remoção dos resíduos do país até 2029. A expansão para terras raras pesadas deverá cumprir as mesmas exigências.
Como a produção na Malásia afeta o mercado brasileiro de terras raras?
O Brasil possui grandes reservas de terras raras, mas a produção ainda é incipiente. A consolidação de um polo alternativo de processamento na Ásia pode estimular investimentos em outros países, incluindo o Brasil, que busca desenvolver sua própria cadeia de minerais críticos com projetos em Minas Gerais e na Bahia.
A iniciativa da Lynas marca um avanço concreto na diversificação do suprimento global de terras raras pesadas. Embora desafios regulatórios e ambientais persistam, a entrada de um novo player não chinês fortalece a resiliência da cadeia produtiva de tecnologias limpas e de defesa no Ocidente. O setor estará atento aos próximos passos da empresa e às respostas do governo chinês.