O nível de tensão no mercado financeiro subiu nesta segunda-feira (5) após o Tribunal de Contas da União (TCU) decidir avançar na apuração sobre a liquidação do Banco Master pelo Banco Central (BC). A corte determinou uma inspeção urgente para reunir documentos e reconstruir o processo decisório que embasou a medida adotada pelo BC em novembro de 2025, quando a instituição foi liquidada diante de indícios de irregularidades e suspeitas de fraude, incluindo operações envolvendo a venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília.
O ministro do TCU responsável pelo caso, Jhonatan de Jesus, justificou a inspeção sob o argumento de que a autoridade monetária não apresentou documentação suficiente na nota técnica enviada ao tribunal. Na mesma manifestação, o ministro não descartou a adoção de medida cautelar que, em tese, poderia influenciar o curso da liquidação.
“Diante do risco de prática de atos potencialmente irreversíveis, não se descarta que venha a ser apreciada, em momento oportuno, providência cautelar dirigida ao Banco Central do Brasil”, afirmou o Jhonatan de Jesus, que encaminhou a sua decisão para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli.
Investidores, bancos e reguladores passaram a acompanhar o desdobramento com lupa. A reversão da liquidação – que assusta o mercado por ameaçar a Autoridade Monetária, a previsibilidade regulatória e, em última instância, a estabilidade do sistema financeiro – é defendida pela estratégia jurídica do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master.
Vorcaro está preso desde novembro de 2025, investigado por suspeitas de fraude, gestão temerária e irregularidades graves que levaram ao acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em volume considerado histórico.
“Todo mundo está acompanhando com cautela, já que uma reviravolta teria desdobramentos relevantes, inclusive sobre o FGC e o pagamento dos CDBs dos investidores do Master”, afirma Sílvio Campos Neto, economista-chefe da consultoria Tendências. “Os agentes estão atentos, porque uma decisão em sentido contrário traria implicações bem mais amplas e estressaria o mercado.”
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Atuação do STF sobre Master aumentou desconfiança do mercado
O movimento, interpretado por agentes do setor como um sinal definitivo de que o caso deixou o terreno para assumir contornos institucionais, reforçou as desconfianças que se intensificaram ainda no fim de 2025, quando o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a realização de uma acareação entre executivos do Banco Master e representantes do Banco Central, no âmbito das ações movidas pela defesa do antigo controlador da instituição.
A audiência, que acabou sendo antecipada em relação ao cronograma inicial, expôs contradições relevantes entre as versões apresentadas pelas partes sobre a situação de liquidez do banco, o acesso a linhas emergenciais e o grau de conhecimento prévio do BC sobre as operações que levaram à liquidação.
O episódio ampliou o mal-estar no mercado, ao alimentar a percepção de que o STF estaria avançando sobre decisões técnicas do regulador e abrindo espaço para a judicialização de um processo tipicamente prudencial, em um contexto marcado por interesses políticos cruzados e pressão política crescente.
Embora o TCU tenha competência para fiscalizar órgãos federais, o ponto crítico, segundo analistas, surge quando o foco da análise é deslocado. “Em vez de concentrar esforços nos atos de gestão que conduziram ao colapso, o tribunal passa a questionar o próprio processo decisório do Banco Central”, afirma Carlos Henrique, Ceo da fintech Sttart Pay.
A atuação do Banco Central foi bem vista por se antecipar ao risco sistêmico. “Foi dentro das regras, inclusive com prazo prévio, dado com meses de antecedência, para que o Banco Master resolvesse seus problemas de liquidez, o que aparentemente não aconteceu”, afirma Raul Sena, Ceo da AUVP Capital. “A função do BC é justamente evitar que o sistema se desestabilize, que as pessoas percam dinheiro e que tudo desmorone.”
Para Sena, o problema central está na sinalização transmitida ao mercado com a inspeção. “Com esse tipo de iniciativa, o TCU passa um recado ruim, independentemente do resultado”, afirma. “Isso acaba sendo visto como fator político, e o mercado financeiro é avesso à instabilidade e à falta de previsibilidade.”
Segundo ele, quando o Banco Central é colocado em xeque, o efeito se espalha por todo o sistema. “Mas é preciso respeitar as instituições, inclusive o STF, que também tem atuado neste caso de forma incomum para uma Suprema Corte.”
Patricia Maia também critica a escalada institucional. “A intervenção do STF gera impacto negativo na economia e na política e traz uma insegurança institucional gigantesca e sem precedentes”, afirma. “Até aqui, o Banco Central sempre teve autonomia técnica e decisória.”
Setor financeiro abraça Banco Central
Diante do avanço do TCU, nesta segunda-feira (5), um grupo de entidades do setor financeiro e de capitais preparou uma carta aberta reafirmando “plena confiança” nas decisões técnicas do Banco Central e destacando a necessidade de preservar sua independência institucional.
A iniciativa foi interpretada por participantes do mercado como uma reação direta à movimentação do TCU, vista por parte do setor como tentativa de constranger ou questionar a decisão de liquidação tomada em novembro de 2025.
A carta, assinada por entidades representantes de 757 instituições financeiras e com apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de entidades como a B3, foi articulada nos últimos dias em meio à inquietação do setor com as ações do TCU.
Para as associações, a inspeção explicita o mal-estar do mercado diante da movimentação do tribunal e funciona como um desagravo institucional ao Banco Central, ressaltando que a defesa não é pessoal ou direcionada a dirigentes, mas voltada à preservação da autoridade técnica da instituição.
“A manifestação conjunta de instituições financeiras não se limitou à defesa do Banco Central como ente administrativo, o posicionamento foi institucional”, afirma Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay.
“A preocupação central expressa foi a erosão da previsibilidade regulatória e da segurança jurídica, pilares fundamentais para a estabilidade do sistema financeiro. Quando decisões técnicas passam a ser revistas sob lógica político-contábil, o custo sistêmico se materializa em aumento de risco, retração de crédito e perda de credibilidade internacional.”
Mercado avalia pressão política sobre Master
Nos bastidores do Congresso, relatos de fontes que lidam com o caso apontam que o ministro Jhonatan de Jesus vem sofrendo pressões de políticos influentes do Centrão, inclusive pela forma como conduziu e acolheu a inspeção, em meio a temores de que o processo possa se transformar em uma disputa de influência entre Senado e Câmara no tribunal.
A indicação de Jhonatan de Jesus ao TCU, fruto de um acordo político envolvendo a reeleição de membros da Câmara, tem sido mencionada nas articulações de bastidor, reforçando a percepção de que há pressão política sobre a condução do caso. “A análise se aprofunda ao considerar o perfil político do relator do processo no TCU e o contexto de sua atuação”, diz Carlos Henrique, Ceo da fintech Sttart Pay.
“A origem eminentemente política de sua nomeação, somada ao padrão de interlocução institucional, alimenta a percepção de que o caso pode estar sendo utilizado como instrumento de pressão.”
O ministro, no entanto, sinalizou a intenção de aguardar levantamentos técnicos antes de decidir sobre eventuais medidas cautelares que possam afetar o curso da liquidação do Master. Há também entendimentos jurídicos diferentes sobre a possibilidade de o TCU determinar a reversão.
“Se a liquidação for revertida, a responsabilidade pelo pagamento volta para o Banco Master, o que é extremamente negativo para os investidores”, alerta Patricia Maia.
Na mesma linha, Sena avalia que uma eventual reversão poderia provocar uma corrida no mercado secundário. “Os detentores desses CDBs tentariam vender a qualquer custo, a preço de banana”, diz. Mesmo nesse cenário, ele não vê recuperação de credibilidade.
“O Master se tornaria um morto-vivo para os investidores, o que dificultaria enormemente a captação de novos recursos, algo essencial para a sobrevivência do banco.”
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