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Sob tarifaço, exportação aos EUA têm maior queda desde pandemia | Brasil

Sob tarifaço americano, as exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 6,6% em 2025 ante 2024, maior queda desde 2020, quando o comércio global foi fortemente afetado pela pandemia. A queda veio em um ano em que Brasil bateu recorde na receita total de embarques, com crescimento de 3,5%. As exportações brasileiras aos EUA de bens que escaparam da sobretaxa da política tarifária americana caíram 5,1%. Os atingidos, 7,4%. Os submetidos a imposto de importação de 40% ou 50% recuaram ainda mais, à taxa de 9,5%. Considerando somente agosto a dezembro, período em que o tarifaço já estava em vigor, a exportação dos produtos sob carga maior de imposto de importação nos EUA caiu 21,6% contra igual período de 2024.

Os dados são da Câmara Americana de Comércio (Amcham) e consideram as duas listas de isenção do tarifaço americano de: a de julho e a de novembro de 2025. Também foram incluídos entre os sobretaxados os itens atingidos pela Seção 232.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, é preciso aproveitar a atual janela de tempo para negociar os produtos ainda afetados. Segundo cálculos da Amcham, 35,9% do que o Brasil exporta aos EUA está submetido às tarifas específicas contra o Brasil, pela IEEPA (lei de poderes econômicos de emergência internacional, na sigla em inglês), e outros 11,9% são sobretaxados pela chamada Seção 232. Desse universo, 7,8 pontos percentuais são de aço e alumínio, destaca Fabrizio Panzini, diretor de políticas públicas e relações governamentais da Amcham Brasil.

“A negociação tem maior probabilidade de gerar bons resultados agora, neste início de ano”, diz Abrão Neto. Com o transcorrer do tempo, a discussão, avalia, fica mais complexa, e outros assuntos passam a concorrer, como as eleições à presidente da República no Brasil e, nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato e a revisão da UMSCA, o acordo entre EUA, México e Canadá.

A IEEPA e a 232 têm impactos diversos e demandam negociações diferentes, ressalta Abrão Neto. “As tarifas de 40% ou 50% afetam exclusivamente o Brasil, o que nos coloca numa situação de competitividade mais comprometida nesses produtos em relação aos demais competidores.”

Na Seção 232, em regra, a condição é a mesma frente aos demais, compara. Ele observa que existem negociações que os EUA têm feito de forma bilateral com parceiros comerciais e que têm dado indicação de acesso diferenciado na 232, com melhores condições. “O Reino Unido foi o primeiro, mas não há ainda detalhamento específico de qual é essa condição mais privilegiada.”

Panzini lembra que, além de específicas ao Brasil, as tarifas da IEEPA são muito mais generalizadas e por isso abrangem um volume de exportação muito mais elevado.

Para Abrão Neto, o quadro atual coloca “mais ênfase e urgência em se buscar uma solução para as tarifas da IEEPA, que singularizam o Brasil, mas sem deixar de lado a tentativa de se buscar avançar também nos produtos da Seção 232, que são muito importantes para a produção e exportação brasileiras, como os setores siderúrgico e de madeira.”

As tarifas via IEEPA devem ser julgadas pela Suprema Corte americana, mas, para Abrão Neto, o melhor desfecho para o Brasil é buscar uma solução via negociação e não esperar eventual decisão do Judiciário derrubando a IEEPA. “Existem outras fundamentações jurídicas e legislações que os EUA podem adotar para estabelecer aumentos tarifários.”

A chamada Seção 301 é um exemplo, diz Abrão Neto. Ele lembra que já há “investigação iniciada e relativamente avançada” envolvendo o Brasil com base no dispositivo. “Um julgamento sobre a IEEPA não é definitivo em relação à situação brasileira, muito embora esse resultado possa servir como gatilho para a revisão das tarifas em relação ao Brasil. Mas o caminho da negociação é inescapável.”

A ação dos EUA na Venezuela, avalia ele, não deve tensionar as negociações sobre tarifas. “O governo brasileiro já deixou clara sua posição. O Brasil tem importância considerável na região latino-americana e tem laços importantes na Venezuela. Pode ser um ator para ajudar num de transição.”

Abrão Neto explica que a queda das exportações brasileiras aos americanos em 2025 não resultou somente de itens sobretaxados. Também houve da redução, diz, de 18,9% nas vendas de petróleo bruto, que não ficou sujeito a tarifas adicionais. Em 2025 o Brasil exportou US$ 37,74 bilhões aos EUA,

US$ 2,65 bilhões a menos que em 2024. Contribuíram para a queda US$ 1,5 bilhão em produtos sobretaxados a 40% ou 50% e US$ 350 milhões em itens da 232. Também foi relevante o recuo de US$ 1,1 bilhão em petróleo, explica Panzini.

“A exportação de petróleo depende de ciclos. Em alguns anos os países podem colocar mais refinarias em manutenção, o que eleva a importação. Foi o que aconteceu nos EUA nos últimos anos. Já se previa, em razão de investimentos e da parte técnica das refinarias, que em 2025 os EUA produziriam mais petróleo internamente e demandariam menos importações. Houve efeito de preços, mas muito mais dessa retomada da produção americana”, destaca Panzini.

Além de petróleo, registraram quedas importantes no ano passado celulose, semimanufaturados de ferro e aço, equipamentos de engenharia, madeira e motores de pistão. Desses produtos, apenas celulose não é atualmente alvo de tarifas de 40% ou 50%.

Se as negociações permitirem redução das tarifas adicionais aplicadas ao Brasil, diz Abrão Neto, a tendência é de retomada do crescimento das exportações brasileiras, sobretudo de produtos industriais. A indústria de transformação é responsável por 80,6% de tudo o que o Brasil vende aos americanos. Dos dez principais itens exportados aos EUA, oito são da indústria de transformação. Em sentido contrário à tendência geral do setor, aeronaves, sucos e carne bovina tiveram alta nas vendas aos americanos em 2025, contendo a queda do setor manufatureiro.

Em 2025, mostra o estudo da Amcham, as exportações industriais do Brasil aos EUA caíram 4,2% ante 2024, a primeira queda de vendas do setor desde 2020. Mesmo assim o mercado americano permanece como o principal destino das exportações da indústria brasileira, com 16% do total, à frente da UE e do Mercosul.

Com a redução, a participação dos Estados Unidos na exportação brasileira caiu de 12% em 2024 para 10,8% no ano passado. Mesmo assim os EUA mantiveram o posto de segundo maior destino brasileiro, depois da China, que ficou com fatia de 28,7% dos embarques. As vendas brasileiras ao país asiático cresceram 6% no ano passado. Para a União Europeia, que absorve 14% da exportação, a alta foi de 3,2%.

Mesmo com a queda de embarques, a corrente de comércio entre Brasil e EUA, que é a soma de importações e exportações, cresceu em 2025, destaca Abrão Neto. Isso porque a compra externa brasileira de produtos americanos cresceu 11,3% e alcançou US$ 45,2 bilhões, segundo maior valor da série histórica oficial. Entre os principais produtos que puxaram a alta, estão motores e máquinas não elétricas, óleos combustíveis, aeronaves e outros medicamentos.

“O comércio entre Brasil e EUA tem perfil muito saudável, de complementariedade. A importação mostrou resiliência e respondeu à demanda do Brasil em 2025 e ao posicionamento consolidado das empresas americanas no país”, diz Abrão Neto. Ele destaca, porém, que no comércio bilateral cerca de um terço vem de trocas entre empresas do mesmo grupo econômico que atuam no Brasil e nos EUA. “Se houver redução reiterada nas exportações, haverá impacto nas importações também.”

Com recuo nas exportações e elevação das importações, o déficit do Brasil com os EUA se aprofundou em 2025, para US$ 7,5 bilhões, ante US$ 249,5 milhões de 2024. O saldo negativo, porém, ficou abaixo do de 2021 e 2022, quando os déficits foram de US$ 8,2 bilhões e US$ 13,9 bilhões, nessa ordem.

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