A Rússia de Vladimir Putin tem lançado mão de múltiplas estratégias para recrutar novos soldados e recompor suas forças após quase quatro anos de guerra na Ucrânia, com o objetivo de evitar uma mobilização nacional ampla e impopular. Entre as medidas adotadas estão altos pagamentos, benefícios legais, isenções fiscais, perdão de dívidas e promessas de cidadania, em uma tentativa de atrair diferentes perfis ao campo de batalha.
Nesse cenário, trabalhadores russos com renda média veem a chance de receberem salários elevados. Já os detentos vislumbram a possibilidade de deixar o sistema prisional. Imigrantes em busca de melhores condições de vida, por sua vez, encontram um caminho facilitado à cidadania russa. Em todos os casos, a exigência é a mesma: assinar um contrato para lutar na Ucrânia.
Além disso, autoridades regionais têm concedido bônus de recrutamento que podem chegar a dezenas de milhares de dólares em alguns casos. Khanty-Mansi, no centro da Rússia, é um exemplo. Lá, um recruta pode receber cerca de US$ 50 mil em bônus diversos, segundo o governo local. O valor configura mais que o dobro da renda anual média da região, onde os salários mensais nos primeiros 10 meses de 2025 ficaram pouco acima de US$ 1.600.
Ao contrário da rival Ucrânia, onde a lei marcial e a mobilização nacional estão em vigor desde fevereiro de 2022, a Rússia tem evitado ordenar um alistamento amplo. Isso porque, no início do conflito, também em 2022, quando o Kremlin tentou uma mobilização parcial de 300 mil homens, dezenas de milhares de russos fugiram para o exterior.
À época, a convocação foi suspensa depois que a meta foi atingida, mas um decreto presidencial manteve aberta a possibilidade de novas chamadas. A mesma medida também transformou os contratos militares em vínculos praticamente sem prazo definido, impedindo soldados de deixar o serviço ou serem dispensados, exceto por limite de idade ou invalidez decorrente de ferimentos.
A partir de então, Moscou passou a se apoiar principalmente no que descreve como contratos de alistamento voluntário para manter o efetivo militar.
Ativistas dizem que esses contratos frequentemente estipulam um período fixo de serviço, como um ano, levando alguns candidatos a acreditar que o compromisso é temporário. Na prática, porém, os contratos são prorrogados automaticamente por tempo indeterminado.
No início da guerra, o recrutamento também se estendeu ao sistema prisional, iniciativa lançada pelo falecido chefe mercenário Yevgeny Prigozhin e posteriormente absorvida pelo Ministério da Defesa. A legislação passou a permitir a incorporação tanto de presos condenados quanto de detentos que ainda respondem a processos criminais.
Em coletiva anual realizada no último dezembro, Putin divulgou os dados de que 400 mil pessoas assinaram contratos militares no ano passado e de que 700 mil soldados russos estão lutando na Ucrânia. Não está claro se esses números são verídicos, entretanto, uma vez que o presidente citou montantes aproximados em 2024 e em 2023.
O Ministério da Defesa do Reino Unido afirmou em meados de 2025 que mais de 1 milhão de soldados russos podem ter sido mortos ou feridos. Um levantamento do site russo independente Mediazona em parceria com a BBC analisou reportagens, redes sociais e sites governamentais e obteve o número de mais de 160 mil militares mortos. De acordo com a pesquisa, mais de 500 eram estrangeiros, vindos de duas dezenas de países.
Na esteira de um conflito que se transformou em uma sangrenta guerra de desgaste, estrangeiros também têm sido alvos do recrutamento, tanto dentro da Rússia quanto no exterior.
Após firmar um tratado de defesa mútua com Moscou em 2024, a Coreia do Norte enviou milhares de soldados para ajudar o aliado a defender a região de Kursk diante de uma incursão ucraniana.
Leis que oferecem cidadania russa acelerada a alistados foram aprovadas, enquanto Putin decretou que o serviço militar passou a ser obrigatório para determinados estrangeiros que buscam residência permanente, aumentando a pressão para que imigrantes ingressem no Exército.
Homens de países do sul da Ásia, como Índia, Nepal e Bangladesh relatam ter sido enganados por recrutadores que prometiam empregos civis. Autoridades do Quênia, da África do Sul, de Cuba e do Iraque afirmam que cidadãos desses países também foram aliciados sob falsas promessas.
Há a leitura de que estrangeiros enganados para lutar são mais vulneráveis por não falarem russo e não terem experiência militar, o que os torna “descartáveis” na visão de comandantes militares.
Não à toa, o Nepal proibiu seus cidadãos de viajar à Rússia ou à Ucrânia para trabalhar. Em 2024, a agência federal de investigação da Índia afirmou ter desmantelado uma rede que atraiu ao menos 35 cidadãos indianos à Rússia sob o pretexto de emprego. Autoridades iraquianas dizem que cerca de 5 mil cidadãos do país se juntaram às forças russas. Em Bagdá, autoridades reprimiram redes de recrutamento, e um homem foi condenado no ano passado por tráfico humano à prisão perpétua.
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