Após semanas que envolveram negociações, ultimatos e um reforço militar aeronaval crescente no Oriente Médio, os Estados Unidos, sob ordens do presidente Donald Trump, decidiram, com apoio de Israel, realizar um ataque em larga escala contra o regime do Irã, atingindo instalações militares, bases de mísseis e parte da liderança do país. Os ataques eliminaram, de uma vez só, grande parte do alto escalão militar e político iraniano, incluindo o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei.
O governo Trump sustenta que a ofensiva em curso, iniciada na madrugada de sábado (28), representa a “última melhor chance” de eliminar ameaças consideradas intoleráveis contra os interesses americanos e de seus aliados.
Trump afirmou em discurso na Casa Branca nesta segunda-feira (2) que o regime iraniano já possuía a capacidade de desenvolver mísseis que poderiam atingir bases americanas no exterior e que, apesar dos ataques realizados pelos EUA no ano passado, Teerã ainda possuía capacidade de avançar rapidamente com seu programa nuclear.
“Eles já tinham capacidade de atingir a Europa e nossas bases, tanto locais quanto no exterior”, disse Trump.
No discurso, o presidente listou os quatro principais objetivos dos EUA no conflito em curso: destruir a capacidade de mísseis balísticos do Irã, neutralizar a Marinha do regime, impedir a obtenção de arma nuclear e cortar o apoio de Teerã a grupos terroristas armados na região.
A decisão de Trump de autorizar o ataque contra o Irã foi tomada após a combinação da falta de avanço nas negociações entre representantes da Casa Branca e de Teerã, mediadas por Omã, de informações de inteligência compartilhadas por Israel sobre movimentações estratégicas do alto comando iraniano e da avaliação, segundo o secretário de Estado Marco Rubio, de que havia risco iminente de retaliação contra forças americanas na região após um eventual ataque de Israel, cujo planejamento os EUA já conheciam.
Neste final de semana, Trump disse à NBC News que o impasse nas negociações diplomáticas entre representantes de Washington e Teerã, ocorreu porque o regime iraniano se recusou a aceitar a exigência americana de interromper o enriquecimento de urânio.
“Eles não estavam dispostos a dizer que não teriam uma arma nuclear. Muito simples”, disse o presidente. Segundo informações, Washington tinha condicionado qualquer avanço nas tratativas em curso à suspensão do enriquecimento de urânio por parte do Irã e à apresentação de garantias formais, verificáveis, de que o regime não buscaria desenvolver arma nuclear.
Ao mesmo tempo em que as tratativas diplomáticas entravam em impasse, serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel identificaram que o aiatolá Khamenei se reuniria com integrantes do alto escalão do regime na manhã do dia da ofensiva. A avaliação interna era de que o momento oferecia uma oportunidade estratégica única para atingir simultaneamente lideranças centrais da estrutura de poder de Teerã e causar maior impacto na cadeia de comando do regime.
Por sua vez, o secretário Marco Rubio afirmou nesta segunda-feira (2), após reunião com parlamentares no Capitólio, que a ofensiva também teve caráter preventivo. Segundo ele, Washington tinha conhecimento prévio de que Israel lançaria uma ação militar contra o Irã e avaliava que Teerã retaliaria contra forças americanas na região.
“Nós sabíamos que haveria uma ação israelense”, disse Rubio. “Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra forças americanas.” Ele classificou o Irã como uma “ameaça iminente” e afirmou que a decisão buscou evitar que tropas dos EUA fossem surpreendidas por uma retaliação direta.
Analistas apontam três cenários para o Irã
No plano militar imediato, a operação em curso, batizada pelo governo dos Estados Unidos de “Fúria Épica”, já produziu impactos expressivos. A Casa Branca afirma que mais de mil alvos foram atingidos nas primeiras 24 horas de conflito, incluindo bases militares e de lançamento de mísseis, sedes do governo e centros de propaganda.
A eliminação do aiatolá Ali Khamenei e de diversos comandantes militares enfraqueceu a cadeia de comando do regime iraniano e alterou, ao menos por enquanto, o equilíbrio interno de poder. Ainda assim, permanece a incerteza sobre quem consolidará o controle do país e se o atual sistema político será de fato desmantelado.
Três cenários principais sobre o futuro interno do Irã são discutidos por analistas internacionais:
1) Consolidação da linha-dura
A Guarda Revolucionária iraniana, braço militar que defende o regime, pode ampliar sua influência política, fortalecendo uma ala ainda mais radical dentro de Teerã. Nesse caso, o país poderia adotar uma postura ainda mais bélica, inclusive acelerando programas militares, como o de mísseis balísticos e nuclear, de forma clandestina.
2) Instabilidade prolongada
Disputas internas pelo poder poderiam gerar uma forte crise política, fragmentação institucional e até confrontos internos, como uma guerra civil. Esse cenário, por exemplo, poderia aumentar o risco de fluxos migratórios.
3) Abertura para negociação sob nova liderança
Após ser fortemente atingido pelos EUA, Teerã poderia optar por uma liderança mais “pragmática”, que buscaria o alívio das tensões e sanções e reduzir isolamento internacional, abrindo espaço para negociação com o Ocidente. No entanto, não há sinais de que essa possibilidade esteja sendo considerada internamente.
Momentos após a confirmação da morte do aiatolá Khamenei, o regime iraniano anunciou que o presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i e o aiatolá Alireza Arafi, membro do Conselho dos Guardiães, assumiriam conjuntamente o comando interino do país, formando um conselho de liderança provisório. O movimento pode sinalizar a tentativa de preservar a continuidade institucional do regime diante do conflito e da pressão.
Em artigo publicado no site The Conversation, Donald Heflin, diplomata de carreira dos Estados Unidos, ex-encarregado de negócios da embaixada americana em Teerã e professor de prática diplomática na Fletcher School da Tufts University, avaliou que “uma mudança de regime [no Irã] será difícil” e acrescentou que ficaria “surpreso se víssemos uma revolta popular no Irã que realmente tivesse condições de derrubar o regime iraniano”. Para ele, a atual estrutura de poder do país é “suficientemente organizada e armada para absorver o choque da perda de lideranças”.
Os ataques de EUA e Israel infligiram danos significativos ao Irã, mas analistas avaliam que, neste momento, os objetivos estratégicos de Trump foram apenas parcialmente alcançados. “Trump pode estar no caminho de limitar temporariamente certos aspectos do poder iraniano, que está mais fragilizado do que nunca, mas ainda é cedo para dizer que ‘cumpriu’ seus objetivos estratégicos de forma sustentável”, afirma Ludmila Culpi, professora de Relações Internacionais da PUC-PR, lembrando que a crise pode se tornar mais duradoura e complexa do que o inicialmente declarado.
Para Frederico Dias, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, o quadro atual revela um êxito militar relevante dos EUA, mas o Irã ainda tem capacidade de retaliação. Ele lembra que o país atacou 27 bases americanas em nove países, matando seis militares dos EUA.
“O sistema teocrático possui mecanismos de sucessão e forças de segurança internas resilientes. Há um risco considerável de que, em vez de uma transição democrática, o Irã mergulhe em uma guerra civil ou em um estado de caos, com facções militares lutando pelo controle e o potencial de instabilidade regional ainda maior. A queda total é um cenário complexo, incerto e improvável sem uma invasão militar por terra e ocupação do país”, explicou o professor.
Impactos no Oriente Médio
Logo após ser alvo dos EUA e de Israel, o Irã decidiu retaliar atingindo bases dos EUA em diversos países do Oriente Médio, escalando o alcance geográfico do conflito para a região. Além de Israel, o regime iraniano lançou ataques contra mais de uma dezena de países na região, incluindo os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait e Catar, onde há bases americanas.
O conflito também se expandiu para o Líbano, depois que o grupo terrorista Hezbollah lançou bombardeio contra instalações militares no norte israelense. Israel respondeu com uma intensa campanha retaliatória. Um dos alvos eliminados foi o chefe do quartel-general de inteligência do Hezbollah, Hussein Makled.
Dias alerta que, em caso de desorganização interna em Teerã, o cenário no Oriente Médio pode se tornar ainda mais instável. “A mudança de regime em Teerã poderia levar a um vácuo de poder e caos, com a proliferação de armas e o surgimento de novos atores não estatais”, disse.
Para o professor, ainda que Israel obtenha um ganho estratégico imediato com o enfraquecimento iraniano, tanto o país quanto “os países do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Omã) seriam expostos a novos e severos riscos”. Isso porque a instabilidade gerada pelo conflito poderia colocar esses países no alvo de milícias e grupos terroristas favoráveis a Teerã.
Na visão do professor, “o cenário mais provável após os ataques deste fim de semana é de conflito prolongado e instável”.
Cenário interno nos EUA: “America First” sob teste e as midterms
O ataque deste final de semana também reverberou no debate político em Washington e colocou sob escrutínio a coerência entre a decisão de Trump de autorizar a ofensiva militar contra o Irã e a doutrina “America First”, bandeira defendida pelo seu movimento político: O “Make America Great Again (MAGA)”.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump defendeu a redução do envolvimento dos EUA em conflitos externos. A atual operação, no entanto, colocou a Casa Branca novamente na liderança de um conflito no Oriente Médio que já resultou na morte de seis militares americanos.
Pesquisa divulgada nesta segunda pela emissora CNN aponta que 58% dos americanos desaprovam os ataques contra o Irã, enquanto 42% apoiam a decisão. O levantamento também indica que cerca de 6 em cada 10 entrevistados temem que os Estados Unidos se envolvam em um conflito prolongado no Oriente Médio.
Em coletiva realizada nesta segunda, o secretário do Departamento de Guerra, Pete Hegseth, invocou o lema America First ao justificar a ofensiva contra o Irã.
“Se vocês matarem americanos, se ameaçarem americanos em qualquer lugar da Terra, nós vamos caçá-los sem pedir desculpas e sem hesitação, e vamos matá-los”, afirmou.
Porém, o conflito contra o Irã pode criar uma tensão dentro da própria base do MAGA, principalmente se gerar mais baixas americanas e pressão econômica.
“Podemos destacar que a escalada militar contraria parte das expectativas da base [eleitoral de Trump] que valoriza menos intervenções, gerando potencial descontentamento do eleitorado e dos grupos empresariais que apoiam o governo. O conflito já é tema de divisão política nos EUA, e pode se tornar um fator eleitoral relevante, com efeitos imprevistos para eleições de [meio de mandato de] 2026”, explicou a professora Ludmila Culpi.
No campo da oposição, o Partido Democrata já sinaliza que deve explorar politicamente o episódio tanto no debate institucional quanto no eleitoral. Este ano os EUA realizam eleições legislativas, as chamadas “midterms”, onde o controle do Congresso estará em disputa.
Parlamentares democratas estão questionando neste momento a legalidade da ofensiva contra o Irã e defendem que o presidente Trump deveria ter buscado autorização formal do Congresso antes de aumentar as hostilidades.
No campo institucional, os democratas articulam a apresentação perante o Congresso de uma resolução com base na Lei de Poderes de Guerra de 1973 (War Powers Act), que limita o uso da força militar sem autorização expressa do Legislativo. A proposta pretende obrigar a Casa Branca a submeter qualquer nova fase da campanha militar à votação no Congresso e, se necessário, restringir o financiamento das operações caso não haja aprovação formal.
No campo eleitoral, a estratégia democrata tende a se concentrar no custo político e econômico da escalada. Lideranças do partido pretendem explorar o argumento de que o conflito pode desviar atenção de prioridades domésticas como inflação, custo de vida e estabilidade econômica.
Os republicanos, por sua vez, devem explorar eleitoralmente a narrativa de “liderança firme” e “defesa da segurança nacional” para tentar manter o controle do Congresso nas midterms. No entanto, o efeito eleitoral dependerá da duração do conflito e de seus custos. Caso a escalada produza novas baixas ou impactos econômicos significativos, a narrativa de firmeza poderá enfrentar resistência entre eleitores moderados e independentes.
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