De acordo com a quarta edição da pesquisa “Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais”, 83% dos bancos publicam relatórios ESG (sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança corporativa), percentual bem acima da média geral de 30%, considerando as mais de 200 instituições financeiras e empresas ouvidas para o levantamento. É comum que essas grandes instituições financeiras tenham gestoras de investimentos próprias e que essas áreas também contribuam para as práticas ESG. As instituições bancárias também se destacam na adoção de indicadores ESG em projetos e na seleção de fornecedores: 70% adotam esse tipo de critério, contra 48% da média geral.
“Isso é importante porque elas [grandes instituições financeiras] têm uma capacidade de indução muito grande. Estamos falando de uma fatia que responde por 70% ou mais do mercado de fundos [de investimentos]. A capacidade desse ‘pedaço’ de mercado de induzir fortemente a questão da agenda de sustentabilidade e práticas ESG é muito grande”, comenta Cacá Takahashi, diretor da Anbima e coordenador da Rede Anbima de Sustentabilidade.
O estudo avaliou as instituições financeiras, gestoras de investimentos (também conhecidas como assets) e outras empresas do mercado de capitais sob níveis de maturidade na pauta ESG, classificando as empresas ouvidas em perfis que vão de “desconfiado”, que percebe o ESG com ceticismo ou como obstáculo ao negócio – até “engajado” – para o qual a sustentabilidade está integrada à estratégia, aos produtos e à cultura organizacional.
“São consideradas engajadas as instituições que têm processos estruturados, organizados de forma pragmática, com integração ESG na gestão dos seus negócios. É um estágio que já se vê com mais consistência, não é mais uma tendência, tentativa e nem só boa intenção, vai além disso”, comenta. São empresas, acrescenta, que além de praticar conseguem mostrar resultados.
Uma das conclusões do estudo é que as casas com maior volume de dinheiro sob gestão e maior número de funcionários tendem a apresentar maior maturidade ESG. Enquanto 52% dos bancos se enquadram nos perfis mais avançados — “emergente” ou “engajado” —, entre as gestoras de recursos independentes (não ligadas a uma instituição financeira) esse percentual cai para 35%.
Para Takahashi, entre as explicações, está o próprio cenário macroeconômico e microeconômico dos últimos anos. Com juros altos e turbulências internacionais, muitas casas passaram períodos difíceis de captação de novos investimentos e manutenção dos clientes. Por isso, a sobrevivência no curto prazo acabou sendo priorizada. “Elas tiveram que, entre outras coisas, cuidar da própria sobrevivência diante das questões macroeconômicas. Vale lembrar que as gestoras de fundos têm dever fiduciário de considerar o retorno dos investimentos esperados pelos investidores como prioridade”, comenta o executivo da Anbima.
Tamanho também influencia
A pesquisa Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais mostrou ainda que o nível de engajamento também varia conforme o volume sob gestão. Dentre as empresas com patrimônio líquido acima de R$ 50 bilhões, praticamente todas estão no perfil “emergente” ou “engajado”.
O mesmo acontece com o tamanho da instituição: grande parte (53%) das empresas com mais de 51 colaboradores foram consideradas com alto nível de engajamento com práticas ESG, enquanto entre as casas menores, com até 10 profissionais, 59% figuram entre as empresas com perfis menos maduros no tema.
“É possível perceber pelas respostas, por exemplo, que os escritórios pequenos acreditam que causam pouco impacto no planeta [consumo de energia e água e geração de lixo]”, comenta o executivo da Anbima. Por outro lado, a visão pragmática das casas sobre os riscos relacionados à questão ESG também é vista como um ponto positivo. Takahashi comenta que a preocupação com as questões de governança, transparência e ética “foram muito bem pontuadas pelas casas independentes”, o que explica a robustez do mercado como um todo.
Outro aspecto positivo é o impulso que o juro básico alto tem dado para produtos de renda fixa ligados à agenda ESG, tais como emissões de debêntures de infraestrutura, títulos do mercado imobiliário e do agronegócio. “As emissões têm contemplado as questões ESG. Isso faz parte de uma compreensão dos benefícios que podem ser obtidos ao incorporar o gerenciamento de risco, onde terá um impacto de preços”, explica.
Na avaliação de Renato Eid, superintendente de eEstratégias Indexadas e Investimento Responsável da Itaú Asset, a maior maturidade das gestoras ligadas a bancos está diretamente associada à consolidação de processos, governança e histórico de integração do tema à estratégia. “A gente trabalha com ESG desde 2004. Não é um modismo. Governança envolve rito, fórum de aprovação e ter essa agenda dentro do posicionamento estratégico”, afirma.
Para Eid, a maturidade não se mede pela quantidade de produtos rotulados como sustentáveis, mas pela incorporação do ESG em toda a operação de investimentos. “Não adianta ter dez produtos ESG e não estar atento a esse aspecto em todo o resto da carteira. A integração ESG dentro do processo de investimento é muito importante. Produtos são relevantes, mas fazem parte da engrenagem”, diz.
Outro elemento central é a prestação de contas ao investidor. Um exemplo citado é a divulgação dos votos em assembleias. “Dar transparência para os votos é fundamental para o investidor entender que está sendo representado. Prestação de contas e transparência são super importantes dentro de uma agenda que vem ganhando maturidade”, afirma. Segundo ele, a Itaú Asset mantém uma página dedicada ao tema, com conteúdos educacionais, white papers e relatórios.
O risco reputacional também entra nessa equação. Para Eid, o risco reputacional aparece quando não se entrega o que foi falado. “Não estou falando necessariamente de greenwashing, mas de evidenciar que estamos numa agenda em que as pessoas fazem de fato, prestam contas e buscam transparência”, afirma. Ele lembra que a gestora construiu uma reputação ao longo de mais de duas décadas, com erros e acertos, e um papel forte de educação do investidor.
A expansão da agenda, segundo o executivo, exige disciplina. “Cada passo que a gente dá em ESG é difícil de voltar atrás. O custo de retroceder é grande. Por isso, temos clareza para dizer que não vamos abraçar tudo ao mesmo tempo, apesar da pressão que existe no mercado. Nosso olhar é cauteloso em tudo o que fazemos”, diz.
Percentual de empresas que publicam relatórios com desempenho ESG regularmente
| Média | 30% |
| Bancos | 83% |
| Assets | 20% |
| Demais instituições financeiras | 39% |
Na Itaú Asset, foi criada uma célula ESG com três pessoas dedicadas, que buscam maneiras de melhorar a integração ESG no processo de investimento e trazer produtos inovadores alinhados à demanda dos investidores. “As pessoas começam a entender que ESG não é um puxadinho nem um departamento de ‘check the box’”, afirma Eid.
Para Luzia Hirata, gerente de ESG da Santander Asset Management, a maturidade ESG das gestoras ligadas a bancos está associada à escala, à disponibilidade de recursos e à padronização de processos globais. No caso do Santander, a construção dessa agenda começou cedo, com o fundo de investimento Ethical Ações Sustentabilidade Special IS, criado em 2001. O fundo foi pioneiro no mercado de estratégia de investimento em companhias que apresentem um melhor ESG. O Santander herdou o Ethical do antigo Banco Real.
“Nesses últimos anos, o mercado mudou, passou a ter mais informação disponível e pessoas dedicadas exclusivamente à análise das empresas dentro da asset”, afirma. Segundo ela, mesmo com ciclos de maior e menor captação, o fundo serviu como base para a expansão da agenda ESG. “É um histórico importante, porque, a partir dele, a gente implementou ações para outros produtos e também internamente”, diz.
Na avaliação da executiva, o vínculo com um grande banco amplia a capacidade da gestora de estruturar a agenda. “As assets vinculadas a bancos são maiores, têm capacidade financeira e humana maior, além de mais recursos para contratar consultorias, metodologias e provedores, que muitas vezes são caros, mas ajudam bastante”, afirma.
Além de aprendizados com o próprio Ethical ao longo de quase 25 anos, a asset do Santander também se beneficia do fato de a matriz ficar na Espanha – o tema de finanças sustentáveis está mais avançado na Europa. É de lá que vem as diretrizes, procedimentos, políticas e critérios de alocação de recursos. São 11 pessoas totalmente dedicadas à temática ESG, trabalhando em metodologia, políticas, práticas de engajamento, desenvolvimento de produtos e dando suporte aos times de outros países – no Brasil, são duas pessoas dedicadas. “Aqui, mesmo com um time menor, a gente conta com ferramentas e sistemas integrados que ajudam muito nas análises dos portfólios”, afirma a executiva.
Luzia observa que outras grandes instituições financeiras brasileiras também começaram cedo. “Santander, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco já tinham produtos há bastante tempo, além de uma base de clientes maior, tanto no varejo quanto no atacado, o que gera demanda e facilita estruturar os produtos”, comenta sobre a maturidade das gestoras dos grandes bancos no tema sustentabilidade.
Contudo, a gerente da asset do Santander pondera que pesquisas setoriais ainda não capturam plenamente a diversidade do mercado. “A Anbima ainda não consegue capturar bem as assets menores, mais de nicho e especializadas. Elas têm outro público, outro tipo de produto, muitas vezes mais elaborado, como private equity e [fundos estruturados], e carregam uma expertise muito grande, mas com menos escala”, diz.
Entre os exemplos de gestoras do tipo no Brasil estão a Régia Capital, focada em produtos com viés ambiental e biodiversidade e fruto de uma parceria entre a gestora de patrimônio JGP e a asset do Banco do Brasil, e a plataforma de investimentos responsáveis Fama Re.capital. Também há um nicho direcionado à investimentos de impacto, como a Vox Capital e GK Partners.
Para Julya Wellisch, sócia e líder global das áreas Jurídica, Compliance e Sustentabilidade da Vinci Compass, que hoje tem cerca de R$ 16 bilhões sob gestão voltados a investimentos sustentáveis no Brasil, “é natural que os bancos estejam mais avançados na agenda ESG”, já que precisam cumprir exigências regulatórias que não se aplicam às gestoras independentes.
Normas como a Resolução 139 do Banco Central e a Resolução nº 4.945/2021 do Conselho Monetário Nacional (CMN) obrigam as instituições a divulgar riscos e oportunidades socioambientais e climáticas e a adotar políticas formais de responsabilidade, elevando o padrão de gestão sustentável do setor financeiro. São obrigatórios relatórios como o de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (Relatório GRSAC) e Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática (PRSAC).
Por outro lado, segundo Julya, quando uma gestora adota práticas sustentáveis sem obrigação formal, “o movimento tende a ser mais genuíno”. Além da convicção interna, a executiva destaca que a pressão de clientes tem ganhado peso, especialmente de investidores europeus, bancos internacionais e instituições de fomento.
De acordo com a pesquisa da Anbima, mais da metade (55%) das assets já conta com políticas formais de investimento responsável. Entre os perfis de maturidade ‘iniciado’, ‘emergente’ e ‘engajado’, esse percentual é igual ou superior a 95%. Além disso, 56% têm alguma estrutura dedicada ao tema enquanto 78% consideram fatores ESG na hora de tomar decisões de investimento.
Na Vinci, por exemplo, a agenda de sustentabilidade antecede o próprio uso do termo ESG. Em 2017, a empresa estruturou sua primeira política de integração ESG para os fundos de private equity, posteriormente reformulada com apoio da consultoria ERM, por demanda de investidores, para aprofundar a integração desses fatores aos processos de investimento.
A agenda ganhou tração a partir de 2020, com a adesão da Vinci ao Principles for Responsible Investment (PRI), sendo uma das primeiras gestoras brasileiras a integrar a iniciativa. O tema avançou também no nível corporativo após seu IPO na Nasdaq, com a criação de um comitê de sustentabilidade e profissionalização da governança. Em 2022, formalizou seu posicionamento em sustentabilidade, deixando explícita a visão de que uma gestão sustentável, técnica e responsável é essencial no longo prazo.
Desde 2021, a Vinci publica relatório anual de sustentabilidade como instrumento de transparência e, no ciclo mais recente, passou a divulgar o relatório de sustentabilidade de forma conjunta e próxima ao formulário 20-F, exigido pela SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) e que reúne as informações de empresas estrangeiras e seus investimentos. A iniciativa busca oferecer “uma visão mais integrada para os stakeholders”, segundo a executiva, já que antes os documentos eram divulgados separadamente.
Evolução do portfólio ESG
Hoje, a Vinci conta com veículos classificados como sustentáveis. Um deles é um fundo de infraestrutura voltado para mudanças climáticas e transição climática, estruturado via Luxemburgo e enquadrado no Artigo 9, com cerca de R$ 2 bilhões sob gestão (dados de julho de 2025) e investimentos no Brasil.
Outro é o fundo IS Vinci Impacto e Retorno IV, voltado a pequenas e médias empresas, principalmente no Nordeste. Diferentemente do fundo principal de private equity, o veículo não busca controle das companhias e atua em parceria com empreendedores com restrições de acesso a capital. A proposta é combinar retorno financeiro e impacto, com métricas específicas por investimento.
Na visão da executiva, estratégias de longo prazo — entre cinco e dez anos — exigem naturalmente a incorporação da sustentabilidade. Em private equity e infraestrutura, o investidor tende a ter maior poder de influência sobre as investidas, o que facilita a implementação de melhorias. Em estratégias de curto prazo, essa influência é menor. Ela reconhece, porém, que a indústria ainda enfrenta desafios na integração ESG em estratégias como multimercados e hedge funds.
A pesquisa da Anbima também aponta que uma evolução na análise das carteiras. A fatia de gestoras que avaliam mais da metade dos ativos com critérios ESG passou de 27% em 2018, para 41% em 2021 e 47% em 2025. Entre os critérios mais observados na análise ESG, destacam-se transparência (88%), ética (87%), segurança da informação (76%) e qualidade do conselho (68%).
Quanto à metodologia, predominam os filtros negativos (negative screening, 46%), seguidos por seleção de melhores práticas (best in class, 41%). Para 51% das assets, a principal motivação é a gestão de riscos.
Percentual de empresas que usam critérios ESG na seleção de fornecedores
| Média | 48% |
| Bancos | 70% |
| Assets | 43% |
| Demais instituições financeiras | 52% |
Engajamento é desejável
Outra prática mais disseminada lá fora, mas que também é adotada por algumas casas no Brasil é o stewardship, nome dado à atuação ativa e responsável de investidores institucionais como “zeladores” das empresas investidas, promovendo engajamento, voto consciente em assembleias de acionistas, monitoramento e transparência para gerar valor de longo prazo, integrar fatores ESG e cumprir o dever fiduciário.
Em 2016, a Associação de Investidores no Mercado de Capitais (AMEC) criou um Código Brasileiro de Stewardship (CBS), com princípios para o exercício de atividades de stewardship por investidores institucionais. Diversas casas de investimentos são signatárias.
Para Eid, da Itaú Asset, o engajamento com empresas é um indicador de amadurecimento institucional. “Não é só o que a gente acha e nem só o que a empresa busca. Existe um trabalho muito importante de engajamento.” A gestora é signatária do CBS e, segundo o executivo, vem melhorando práticas, votos, transparência e reporte dos temas discutidos com as companhias. “No Brasil, muitas vezes isso não é falado, mas é feito. Tem muita gente trabalhando nessa frente [ de stewardship.”
Luzia, do Santander, ressalta que o engajamento exige recursos, priorização e tempo — algo mais viável em estruturas maiores. “É um trabalho muito intenso, principalmente quando os times são pequenos. Precisa priorizar, saber o que conversar com as empresas, construir relacionamento e acompanhar depois da decisão de investimento”, afirma.
Ela também aponta entraves operacionais no Brasil. “Ainda existe muita burocracia para participar de assembleias. Isso precisa evoluir para facilitar o acesso e aumentar a participação.”
A Vinci segue a política de voto obrigatório da CVM para companhias abertas do portfólio e mantém proximidade com investidas no mercado privado, com processos de due diligence. Ao identificar fragilidades, não risca a empresa da lista, mas elabora um plano de ação para ser implementado ao longo do ciclo.
A 4ª edição da pesquisa Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais entrevistou 206 instituições associadas ou que seguem a autorregulação da Anbima para avaliar como percebem e integram as práticas ESG em suas estruturas e decisões. Do total, 74% são gestoras de recursos (assets), 11% bancos e 15% outras instituições (corretoras, distribuidoras e securitizadoras).
Nível de maturidade ESG do mercado de capitais
Desconfiado: É uma empresa “distante” da temática. Percebe a sustentabilidade como algo distante dos negócios e até a vê como uma ameaça. Tem dúvidas, visão simplificada e até uma compreensão equivocada sobre o tema. Acredita, por exemplo, que a sustentabilidade é compromisso exclusivo com o meio ambiente.
Iniciado: É uma empresa “emergente” na temática. Percebe, em certa medida, a importância da sustentabilidade para os negócios. Em nível de conhecimento, entende melhor o impacto ambiental, que se traduz, em seu dia a dia, em uso de lâmpadas de LED, instalação de temporizadores nas torneiras, uso eficiente do ar-condicionado no escritório, digitalização de documentos e menor uso de impressão, além da coleta seletiva de resíduos. Porém, em outros aspectos, o compromisso se limita a engajamento com projetos de filantropia, os quais associa à pauta social, e alguns aspectos de governança corporativa.
Engajado: Tem uma percepção do valor da sustentabilidade para o negócio (rentabilidade) e também para a sociedade e o planeta. Tem no portfólio produtos e serviços mais coerentes com as boas práticas ESG. Aspectos ESG permeiam as decisões estratégicas e exigem critérios transparentes da liderança.
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