O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou que não vê qualquer razão para dialogar com o colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a respeito da crise venezuelana e manifestou publicamente a sua preferência pela vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial do país deste ano. As declarações foram dadas por Milei em entrevista ao jornalista Andrés Oppenheimer, da CNN, publicada neste sábado (10).
Questionado sobre as posições brasileiras diante da escalada de tensões envolvendo os Estados Unidos e o regime do ditador Nicolás Maduro, retirado do poder há uma semana pelo governo Donald Trump, Milei foi taxativo ao afirmar que não tem “nada a falar com Lula” sobre a Venezuela. Ele endossa integralmente a postura de Washington, de ação direta contra a ditadura venezuelana, que é oposta ao discurso diplomático brasileiro.
O presidente argentino caracterizou as propostas de Lula como frutos do que chamou de “socialismo do século 21” e disse preferir uma “solução com os Bolsonaro” no Brasil, sem dizer como imaginaria uma relação bilateral com Lula em eventual novo mandato do petista. Milei acrescentou que diferenças políticas não impedem a continuidade de relações comerciais mutuamente benéficas com o lado brasileiro, apesar do tom crítico.
Flávio festeja apoio de Milei e fala em parceria comercial efetiva a partir de 2027
Flávio Bolsonaro reagiu de forma entusiasmada à manifestação pública de apoio do presidente argentino. Para ele, o gesto confirma a sintonia entre lideranças que defendem a liberdade econômica e uma integração regional orientada pelo mercado. Nas redes sociais, o pré-candidato à Presidência pela direita sustentou que, a partir de 2027, a eventual convergência política entre Brasil e Argentina poderia se traduzir em “parceria comercial efetiva”.
Se eleito, o senador prevê redução de barreiras, estímulo ao comércio bilateral, cooperação em energia e infraestrutura e reposicionamento do Mercosul em bases mais pragmáticas. Para ele, o endosso de Milei sinaliza um ambiente externo favorável à construção desse eixo econômico, em contraste com o modelo que o argentino critica nos governos de esquerda.
Os países da União Europeia (UE) acabaram de aprovar um histórico acordo de livre-comércio com o Mercosul, encerrando 25 anos de negociações e abrindo caminho para a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
O tratado, que ainda depende da aprovação final do Parlamento Europeu e da assinatura formal — prevista para este mês — promove o fim gradual de tarifas sobre 90% das mercadorias vendidas entre os blocos, ampliando acesso de produtos sul-americanos ao vasto mercado europeu e fortalecendo investimentos bilaterais.
Falas de Milei sobre Lula integram contexto de escalada de tensões bilaterais
As falas de Milei ocorreram dentro do contexto de permanente atrito entre Brasil e Argentina. O Itamaraty comunicou aos governos de Buenos Aires e Caracas que o Brasil deixará de representar os interesses da Argentina na Venezuela, função que vinha exercendo desde agosto de 2024, quando o corpo diplomático argentino foi expulso de Caracas após o rompimento das relações diplomáticas com a ditadura de Maduro.
A custódia da embaixada argentina em Caracas — que envolvia tutela consular e assistência aos cidadãos — será transferida, segundo fontes diplomáticas, para a Itália, conforme previsto em acordos internacionais que permitem a representação de interesses de um Estado por outro em circunstâncias excepcionais.
Essa mudança ocorre no momento marcado por repentinas transformações diplomáticas na região, sobretudo após a operação que resultou na captura de Maduro pelos EUA, escancarando divergências profundas na abordagem de Brasília e Buenos Aires sobre a Caracas. Enquanto Lula condenava qualquer intervenção militar estrangeira na Venezuela, Milei apoiava a pressão americana contra o regime chavista.
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