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Congresso do Peru elege José María Balcázar como presidente interino | Mundo

O Congresso do Peru elegeu na madrugada desta quinta-feira José María Balcázar como novo presidente interino do país, em substituição de José Jerí, destituído pouco antes das eleições gerais de 12 abril. Balcázar é o nono líder peruano em uma década, um reflexo da fragilidade do sistema político local, no qual o impeachment se tornou corriqueiro no jogo político, em prejuízo das instituições.

Balcázar, um ex-juiz de 83 anos, do partido de esquerda Perú Libre, derrotou María Carmen Alva, do conservador Acción Popular, em segundo turno por 60 votos a 46, e deverá governar em um mandato-tampão até 28 de julho, quando o poder será transferido ao vencedor das eleições de abril, com segundo turno previsto para junho.

Analistas destacaram que a ascensão de Balcázar e a destituição de Jerí se explica principalmente pela proximidade das eleições de abril e pelo alto custo político de mantê-lo no poder para parlamentares preocupados com a reeleição.

Há quatro meses, Jerí foi empossado como presidente após a queda de Dina Boluarte, destituída em meio à incapacidade de conter a crise de segurança pública. Ele chegou ao cargo com índices razoáveis de aprovação, impulsionado pela promessa de restaurar a ordem. No entanto, a popularidade se deteriorou rapidamente, diante da ausência de resultados concretos e do surgimento de escândalos que minaram sua credibilidade, incluindo encontros clandestinos com empresários chineses.

“A classe política avaliou que, diante das eleições, seria mais custoso manter Geri no cargo do que retirá-lo”, disse Hugo Perea, ex-vice-ministro da Economia e economista-chefe para o Peru do BBVA Research. “A população estava bastante indignada e havia a percepção de que a classe política o estava protegendo. Para dar um sinal no sentido contrário, decidiram finalmente tirá-lo da presidência”.

Segundo especialistas, o cálculo eleitoral por trás da destituição fica evidente ao se observar que os mesmos parlamentares já mantiveram presidentes anteriores no cargo diante de escândalos similares ou até mais graves, como no caso de Boluarte, que permaneceu no poder mesmo após acusações relacionadas à morte de 50 pessoas durante protestos contra o governo.

“Se esses escândalos tivessem ocorrido um ano antes, é provável que Jerí tivesse sido mantido no cargo”, avalia Arturo Maldonado, professor de ciências políticas da Pontifícia Universidade Católica do Peru. “Temos um Congresso em modo eleitoral, no qual diferentes bancadas, com parlamentares que podem estar buscando a reeleição, querem ser vistas pela população como opositoras ao governo, para assim aumentar suas chances de vencer nas urnas”.

Em um panorama mais amplo, especialistas avaliam que a sucessão de crises presidenciais no Peru decorre de um Congresso que banalizou o uso do impeachment, até mesmo usando medidas que deveriam ser excepcionais como moeda de troca política.

“Isso mostra que destituição de presidentes passou a fazer parte do jogo político cotidiano no Peru, quando, há dez anos, eram medidas realmente extraordinárias, que os políticos não se atreviam a usar com tanta facilidade como hoje”, diz Maldonado.

Eduardo D’Argent, também professor de ciência política da Pontifícia Universidade Católica do Peru, afirmou que se tornou um “padrão” o Congresso destituir presidentes com base em suspeitas que, ainda que graves, seriam objeto de investigação para serem esclarecidas posteriormente. “Aqui, elas se transformam em motivos para trocar o presidente”.

Para D’Argent, o fato de terem afastado um presidente que acumulava anteriormente a função de presidente do Congresso também revela um modelo político pouco sustentável, no qual os próprios partidos podem eleger um presidente interino e, em seguida, destituí-lo quando lhes convém.

“Isso aprofunda o enfraquecimento da figura presidencial e também mostra o tipo de sistema que está sendo conduzido por um Congresso extremamente irresponsável, movido por interesses pequenos e imediatos, sem uma direção política de médio e longo prazo. Tudo isso não tem impacto apenas na política, mas também nas estruturas do Estado e nas políticas públicas”, acrescentou.

Faltando pouco tempo para a eleição presidencial, analistas avaliam que os impactos da destituição de Jerí devem ser mínimos nas urnas, diante da normalização da troca de presidentes pela própria população. Isso, porém, não anula o acúmulo de instabilidade política no país nem a possibilidade do surgimento de candidatos antiestablishment que explorem o cansaço da população com a insatisfação em relação aos governos.

“Por enquanto, o cenário é tranquilo, com candidato moderados liderando as pesquisas, mas, na prática, muitas vezes o voto no Peru se define na última semana”, diz Perea. “Há algo em torno de 40% de indecisos. Esses indecisos podem acabar migrando para alguém mais antiestablishment, mais radical — pessoas cansadas da classe política podem decidir votar em um outsider. Isso não é algo que se possa controlar.”

Perea ressalta ainda que a instabilidade política no Peru, que se tornou cotidiana, dificilmente será resolvida no curto prazo. “Seria necessária alguma reforma política que garantisse maior estabilidade presidencial, por exemplo. Mas essa é uma mudança que teria de ser feita pelas próprias partes interessadas, e elas provavelmente não vão querer fazer essas alterações.”

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