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Como tomada de ilha pode ser um golpe fatal para o regime do Irã

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Uma discreta faixa de terra de apenas 20 quilômetros quadrados localizada no Golfo Pérsico pode se tornar um alvo estratégico da campanha militar dos EUA e Israel para derrubar as estruturas que mantêm o regime iraniano de pé.

A Ilha de Kharg abriga a principal instalação petrolífera do país, responsável pelo processamento de até 90% do petróleo que é exportado. A retirada do controle iraniano sobre o território poderia derrubar um dos pilares econômicos da Guarda Revolucionária, considerada a “última guardiã” do regime.

O professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) João Alfredo Lopes Nyegray, explicou à Gazeta do Povo que a ilha é o gargalo físico que conecta o Irã ao seu principal fluxo de caixa externo.

“Em termos de infraestrutura, Kharg abriga um dos maiores e mais críticos terminais exportadores do país; estimativas recorrentes em fontes de energia indicam que uma parcela muito elevada do petróleo bruto iraniano sai por ali. Além de concentrar carregamento, a ilha tem grande capacidade de estocagem no próprio terminal, o que permite ao Irã ‘amortecer’ oscilações de fluxo e organizar embarques mesmo sob pressão, algo que serviços especializados também detalham ao tratar da infraestrutura e expansão de tanques em Kharg”, disse.

Para o analista, perder o controle da ilha de Kharg iria muito além de perder uma posição simbólica no Golfo Pérsico. Na prática, significaria transformar um conflito que já é dispendioso em uma guerra potencialmente asfixiante.

Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, afirma que Kharg consolidou-se como o pilar central de sobrevivência econômica do Irã. Sem a ilha, Teerã enfrentará um estrangulamento comercial, que pode paralisar a economia nacional, já deteriorada ao longo dos anos pelas inúmeras sanções que enfrenta.

“A ilha é o ponto de partida da ‘frota fantasma’ que dribla sanções ocidentais para abastecer o mercado chinês. Perder o controle funcional de Kharg significaria, na prática, o estrangulamento imediato das receitas em moeda estrangeira de Teerã. Sem esse fluxo financeiro, o Estado perde a capacidade de financiar subsídios internos e manter a máquina pública, resultando em um isolamento comercial sem precedentes que paralisaria a economia nacional”, avalia.

De acordo com a empresa Kpler, que coleta dados e análises para o mercado global de commodities e logística marítima, o Irã aumentou drasticamente sua produção de petróleo na instalação de Kharg nas semanas que antecederam os ataques conjuntos de Israel e EUA, chegando a níveis recordes de quatro milhões de barris por dia, algo que não era visto desde 2018, quando o presidente Donald Trump impôs novas sanções nucleares ao país.

Qual a importância estratégica da ilha para a Guarda Revolucionária do Irã?

EUA e Israel prometeram intensificar a pressão sobre o regime iraniano nesta semana. Um dos alvos estratégicos que as forças militares têm mirado nos últimos sete dias é a Guarda Revolucionária iraniana, considerada a “última guardiã” do regime islâmico.

O poderoso grupo paramilitar ligado às lideranças do país persa exerce profunda influência em diferentes setores da sociedade iraniana. A Guarda Revolucionária administra sua própria marinha e força aérea, funcionando de forma independente das forças armadas regulares do Irã.

Mas a influência vai muito além da área militar, abrangendo ainda inteligência, política e economia. Um dos setores de maior importância do país recebe especial atenção dessa força coercitiva ligada ao regime: petróleo e gás.

Para Nyegray, a ilha de Kharg é a “pedra angular” da receita iraniana e um grande gerador de recursos para a própria Guarda Revolucionária, um dos sustentáculos do poder iraniano capazes de sufocar levantes internos quando necessário.

Já o diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, descreve a relação entre a Guarda Revolucionária e a ilha de Kharg como simbiótica. “A ilha opera sob a vigilância direta da Guarda Revolucionária Islâmica, que não apenas garante a segurança militar do perímetro, mas também coordena as operações logísticas clandestinas para contornar embargos internacionais”.

Riscos de um ataque a Kharg

Até o momento, a operação conjunta de Israel e EUA não atingiu a ilha de Kharg e isso pode ter um motivo claro: a turbulência esperada para os mercados globais.

O início do conflito, há uma semana, desencadeou uma instabilidade nos preços do petróleo. Nesta sexta-feira (6), o petróleo Brent, que serve de referência global, ultrapassou o patamar de US$ 92 o barril e as expectativas do mercado não melhoram com o passar dos dias.

Uma análise do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) aponta que um bloqueio ou tomada da Ilha de Kharg teria a capacidade de gerar uma nova onda de turbulência no mercado energético e na economia global.

Uma ação em Kharg poderia interromper um fluxo de até 1,6 milhão de barris por dia das exportações de petróleo bruto iraniano, todas destinadas à China. O problema é que uma interrupção desse nível em qualquer parte do mundo afeta diretamente os preços globais.

Segundo o CSIS, um bloqueio de EUA e Israel ao controle do Irã sobre a ilha e os impactos da decisão levariam a China a licitar suprimentos substitutos, provavelmente representando um aumento de pelo menos US$ 10 a US$ 12 no preço global do petróleo bruto. 

No caso de ataques à infraestrutura, os efeitos poderiam ser ainda mais devastadores. O preço do petróleo provavelmente seria afetado de forma mais grave que na primeira hipótese pois os danos à infraestrutura iraniana manteriam o petróleo fora do mercado por um longo período, criando uma instabilidade de prazo extenso.

Possível operação na ilha não deve derrubar o regime a curto prazo, avaliam analistas

Os analistas destacam que não há como afirmar de forma imediata que a perda do controle desta faixa de terra provocaria a derrubada do regime islâmico. “[…] Mas é certo que tal evento provocaria um desafio existencial. A incapacidade de pagar o aparato de segurança e de conter a inflação, que já estava em níveis altíssimos mesmo antes do início dos ataques, e que certamente aumentaria a partir do colapso petrolífero, enfraqueceria as bases de sustentação do regime, tornando a manutenção do poder central uma tarefa extremamente difícil”, avalia Caichiolo.

Nyegray, por sua vez, diferencia o colapso econômico que a tomada da ilha pode gerar do colapso político. “Um choque em Kharg pode reduzir dramaticamente a entrada de divisas e aumentar estresse social, mas regimes como o iraniano foram desenhados para sobreviver com repressão, racionamento e economia de guerra por períodos surpreendentemente longos”.

O analista pontua ainda que um ataque que ameace a sobrevivência financeira da Guarda Revolucionária pode gerar um efeito reverso e fortalecê-la a curto prazo. “[…] quando o sistema entra em modo de cerco, o centro de gravidade migra do político para o securitário: mais controle, mais repressão, menos espaço para dissenso”, explica.

Para o professor, a queda do regime iraniano dependeria menos de perder Kharg e mais de uma combinação rara: fratura entre elites (clero, Guarda Revolucionário e burocracia), incapacidade de pagar e controlar as forças de segurança, colapso de legitimidade em larga escala e uma oposição capaz de ocupar o vácuo com coordenação. “E isso, historicamente, não é consequência automática de um único golpe de infraestrutura”.

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