InícioMundoCessar-fogo comprova "relação especial" de Trump com o Catar

Cessar-fogo comprova “relação especial” de Trump com o Catar

Publicado em

SIGA NOSSAS REDES SOCIAS

spot_img

Uma mistura de otimismo e preocupação tomou conta do mundo nesta semana com o tão aguardado acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, que entrou em vigor nesta sexta-feira (10). No entanto, toda a euforia da trégua minimizou um movimento geopolítico que ocorre há meses: uma influência cada vez maior do Catar sobre os Estados Unidos.

Dois episódios recentes evidenciam isso: o pedido de desculpas imposto ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pelo ataque em setembro a Doha – algo que possivelmente foi constrangedor para a autoridade israelense – e a assinatura de uma ordem executiva pelo presidente americano, Donald Trump, que garante a segurança do Catar contra qualquer agressão. O documento diz que qualquer ataque ao país será considerado um ataque aos Estados Unidos, o que lembra o artigo 5 do tratado da Otan, de defesa mútua.

Doha se tornou o principal abrigo do Hamas no Oriente Médio, especialmente depois dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, quando Israel iniciou suas operações militares na Faixa de Gaza. Muitos terroristas encontraram no país um refúgio contra a pressão militar de Israel. Os fortes laços com o Irã também estão presentes no histórico do Estado catari.

Essa crescente aproximação do governo Trump com o Catar, apesar da expressa condenação da Casa Branca ao terrorismo e dos atritos com o regime de Teerã, mostra que o governo de Doha mantém uma forte influência na política do republicano para o Oriente Médio e pode frear alguns interesses de Israel na região.

Ksenia Svetlova, diretora executiva da Organização Regional pela Paz, Economia e Segurança (Ropes) e ex-membro do Parlamento israelense elencou em um artigo de opinião no jornal Times of Israel no mês passado três alianças informais que se formaram no Oriente Médio: o eixo iraniano, que conta com seus braços terroristas como o Hamas e o Hezbollah; o eixo moderado, que inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Jordânia e outros; e o eixo Catar-Turco, apoiador da Irmandade Muçulmana, do Hamas e outros grupos da região.

Svetlova pontua que este último bloco frequentemente se posiciona contra o bloco saudita-egípcio, ao mesmo em que hospeda forças e investimentos dos Estados Unidos.

Trump poderia se aproximar especialmente do segundo eixo, com a Arábia Saudita, visto que mantém negócios no Oriente Médio. No entanto, o primeiro plano apresentado pelo republicano em fevereiro, a “Riviera de Gaza”, gerou atritos com o Egito, um dos mediadores do conflito entre Israel e Hamas – o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, chegou a cancelar uma viagem a Washington devido à proposta controversa.

Enquanto tudo isso acontecia, o Catar seguiu como um país intocado pelo governo Trump em suas críticas e medidas. Em maio, o republicano chegou a visitar Doha, sendo presenteado com um Boeing 747 na ocasião para ser usado como uma aeronave da Air Force One, avião oficial da presidência americana. O Catar também é um dos mediadores do conflito entre Israel e Hamas.

Investimentos em universidades, importância militar e negócios particulares

Uma série de investigações do Departamento de Educação dos Estados Unidos revelou em 2020 mais de US$ 6,6 bilhões em financiamento externo em várias universidades americanas. Um desses investimentos vinha do Catar, mas também foram listados China, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

O relatório do governo americano, feito no primeiro governo de Trump, apontou esse financiamento como um “risco para a segurança nacional” na ocasião. Harvard, Stanford, MIT e outras instituições de elite estavam incluídas nesses fundos externos. De acordo com os registros, entre 2012 e 2019, Harvard recebeu cerca de US$ 7 milhões de Doha.

Alguns anos depois, esses ambientes estudantis se tornaram palco de protestos violentos anti-Israel, com casos de antissemitismo emergindo das universidades americanas.

Além dos investimentos na educação dos Estados Unidos, o Catar também é um importante aliado no setor militar de Washington, mantendo em seu território a maior base americana do Oriente Médio, Al Udeid, alvo de um ataque do Irã neste ano.

Nesta sexta-feira, o governo dos EUA também anunciou a instalação de uma base aérea do Catar em solo americano – a primeira do tipo -, reforçando a cooperação de defesa entre os dois países. Apesar dos laços com o Hamas serem motivo de preocupação para o governo Trump, Doha se tornou um local estratégico para as Forças Armadas americanas na região.

Em 2017, durante o primeiro mandato, Trump chegou a declarar um boicote ao Catar, dizendo que o país era um claro financiador do terrorismo. Contudo, poucas semanas depois, quando membros de seu governo agiram para evitar um isolamento de Doha – especialmente pela presença da importante base militar – o republicano se ofereceu para mediar uma crise entre o Catar e países vizinhos.

Além do envolvimento político e econômico entre Washington e Doha, familiares de Trump possuem laços empresariais com o Estado catari, que se apressou em financiar projetos imobiliários da família Trump, entre eles o resgate de um imóvel da Kushner Companies, ligado ao genro do presidente, um acordo amplamente visto como uma influência financeira do país do Oriente Médio na Casa Branca.

Desde o início do segundo mandato, Trump manteve uma relação amigável com o Catar. Na coletiva com Netanyahu, ele elogiou o emir catari, xeque Tamim bin Hamad Al Thani, chamando-o de “homem fantástico” por seu apoio ao plano de paz entre Israel e Hamas.

A riqueza do Catar, portanto, se tornou sua principal arma de negociação com os Estados Unidos e outras potências mundiais. Trump não condenou a posição do Catar sobre o Hamas, apesar de Doha não ter feito nada durante os dois anos de guerra para pressionar o grupo terrorista a se desarmar e devolver os reféns sequestrados em 7 de outubro.

@jornaldemeriti – Aqui você fica por dentro de tudo.
Fala com a gente no WhatsApp: (21) 97914-2431

Artigos mais recentes

Rumos 2026: É necessária uma agenda de reformas estruturais para destravar o ambiente de negócios, diz Trajano | Brasil

Segundo o executivo, avanços na agenda microeconômica podem contribuir para reduzir riscos...

Irã diz ter atacado gabinete do primeiro-ministro de Israel

O regime do Irã disse nesta segunda-feira (2) que atingiu o gabinete do primeiro-ministro de...

Em represália a ataque a Israel, Líbano proíbe atividades militares do Hezbollah | Mundo

O governo do Líbano proibiu nesta segunda-feira as atividades militares do Hezbollah...

Israel mira alvos no Líbano enquanto guerra com Irã se amplifica

As Forças de Defesa de Israel se voltaram para um novo alvo na madrugada...

MAIS NOTÍCAS

Rumos 2026: É necessária uma agenda de reformas estruturais para destravar o ambiente de negócios, diz Trajano | Brasil

Segundo o executivo, avanços na agenda microeconômica podem contribuir para reduzir riscos...

Irã diz ter atacado gabinete do primeiro-ministro de Israel

O regime do Irã disse nesta segunda-feira (2) que atingiu o gabinete do primeiro-ministro de...

Em represália a ataque a Israel, Líbano proíbe atividades militares do Hezbollah | Mundo

O governo do Líbano proibiu nesta segunda-feira as atividades militares do Hezbollah...