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Atrito entre governo e evangélicos pode atrapalhar articulações eleitorais, avaliam especialistas | Política

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O mal-estar com evangélicos causado pelo desfile de carnaval em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode resultar em um problema prolongado para o petista na construção de articulações e alianças políticas no ano eleitoral, na avaliação de especialistas. O efeito concreto, no entanto, ainda deve ser refletido nas próximas pesquisas.

Lula foi homenageado pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, que exaltou o petista ao desfilar no domingo (15). O atrito com religiosos foi causado principalmente por causa de uma ala da agremiação chamada “Neoconservadores em conserva”, que representava famílias brasileiras dentro de latas de alimento em conserva. Algumas traziam adereços com referência religiosa, como bíblias e mãos apontadas para o alto.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de Ciência Política da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp), afirma que a falta de cuidado do governo e da escola com os evangélicos fez com que lideranças avessas ao PT e a Lula acusassem o governo e a agremiação de intolerância religiosa.

“[A forma como os evangélicos foram retratados] cria um mal-estar na relação [de Lula] com os líderes evangélicos e constrange aquelas lideranças que vinham fazendo uma rota de aproximação com o governo”, diz Teixeira.

Para o professor da FGV, o conflito pode ter impacto na formação de alianças. “O governo, que esperava ter feito um golaço, pode estar experimentando um problema que vai ter um tempo de duração tão longo que pode virar uma questão para a articulação e alianças [políticas], inclusive”, destaca Teixeira.

Como mostrou o Valor, integrantes do Palácio do Planalto já monitoram a possibilidade do desgaste com evangélicos ser permanente. A leitura, no entanto, é que ainda será preciso avaliar, com o tempo, se a situação vai se prolongar.

Nos últimos meses, o governo vinha tentando se aproximar do eleitorado conservador, especialmente os evangélicos, para quebrar resistências dessa parcela da população ao PT. Dados da pesquisa Genial/Quest publicada em 11 de fevereiro mostraram que apenas 34% desse segmento religioso aprova o atual governo Lula, enquanto 61% desaprova. Considerando o total do eleitorado, a desaprovação é de 49%, enquanto a aprovação é de 45%.

Nesse sentido, o risco para o governo é gerar atrito justamente com a fatia de evangélicos que estão em disputa pela esquerda e pela direita, avalia o antropólogo Juliano Spyer.

“Em termos de conversas em grupos de WhatsApp, de interlocutores que eu consultei e de material publicado na internet, essa foi uma ação muito infeliz. Eu não sei qual foi a intenção, talvez a intenção tenha sido de fato fazer a provocação. A gente fica um pouco em dúvida se esse tipo de amadorismo ainda poderia acontecer [por parte do PT]”, analisa o antropólogo.

Spyer pondera que o resultado concreto do desfile só poderá ser visto por meio das pesquisas eleitorais. “O que esse desfile fez foi tocar naquilo que é mais delicado para o evangélico comum, que é essa questão da família tradicional. Então, nas próximas pesquisas, a gente vai ver se a rejeição do Lula aumenta por conta disso, particularmente.”

Teixeira, da FGV, também salienta que ainda não dá para medir a extensão da crise, uma vez que a “reação raivosa” após o desfile veio do segmento político e religioso que já tinha raiva do governo, que inclui o pastor Silas Malafaia e os deputados Marco Feliciano (PL-SP) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), segundo o docente.

“Havia um certo avanço do governo com esse segmento. A própria [primeira-dama] Janja estava participando de muitos eventos [religiosos] também. Agora a gente precisa dar um tempo, não tem como mensurar no sentido mais geral. Tem que esperar as pesquisas, que hoje fazem esse tipo de mensuração sobre como está o comportamento do eleitorado deste segmento [evangélico] para cada candidato”, pontua Teixeira.

Na avaliação de Teixeira, o melhor remédio para estancar a sangria gerada pela crise seria o governo Lula admitir que errou. Para o professor da FGV, a eventual aprovação de Jorge Messias pelo Senado para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) também pode arrefecer a crise.

“O fato de ter mais um evangélico além de André Mendonça dentro do STF pode, digamos assim, minimizar um pouco essa visão de que o Lula é contra os evangélicos”, analisa. Ele diz, por outro lado, que enxerga o “efeito Messias” como limitado.

“Messias, enquanto alguém do mundo evangélico, já tentou modificar essa situação [de desgaste do governo Lula com os evangélicos] no processo eleitoral, já tentou abrir outras frentes de diálogo e é sempre o representante do governo na marcha de Jesus. Ou seja: não se sabe o que ele pode fazer além disso.”

Já Spyer afirma que esse talvez seja um dos casos em que “não fazer nada é melhor do que fazer alguma coisa e gerar mais ruídos”. Na visão do antropólogo, outra alternativa que poderia ser adotada pelo Executivo seria pedir desculpas publicamente.

“A percepção pública é de que o Lula, de alguma forma, estava envolvido [na organização da apresentação da escola de samba]. No final das contas, essa associação foi feita, independentemente da gente querer que ela aconteça ou não. Então, talvez agora seja o momento do PT falar: ‘Eu errei. Foi um erro ter participado desse desfile”.

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