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As habilidades que temos e não sabemos | Carreira

Quais as habilidades que as mães adquirem ao cuidar de seus bebês? O que incluir no currículo ao voltar ao mercado, depois de se afastar das atividades profissionais por licença-maternidade ou mesmo por mais tempo?

Acredito que todas as mulheres que passaram por essa situação têm alguma boa história para contar: manter as capacidades cognitivas depois de passar a noite em claro, repetir, sem reclamar, a troca de fraldas quantas vezes for necessário quando os bebês sofrem desarranjos intestinais, ou engolir o choro do cansaço acumulado, entre outras imensuráveis situações que cuidar de um bebê exige.

É possível mensurar as inúmeras habilidades aprendidas nesse contexto? É possível apropriar-se dessas habilidades e, em posse delas, usá-las em posições de liderança e/ou novas identidades profissionais? Resiliência é o mínimo que podemos dizer sobre esse período.

A complexidade de papéis que se sobrepõem durante a vida, como pai, mãe, filho (a), irmão (a), colegas, parceiro (a), entre outros, permite a aquisição de uma variedade de competências que podem ser úteis na vida pessoal e no trabalho. Ao construir nosso mapa da vida encontramos uma riqueza de recursos que compõem nossa identidade. O vice-versa também é verdadeiro: inúmeras habilidades que aprendemos no trabalho são transpostas para a nossa vida cotidiana.

O fato é que nossos processos seletivos ainda consideram fragmentos do nosso eu, aspectos esses que se contrapõem à dinâmica de múltiplos papéis que se interseccionam ao longo de nossa vida. Nossa identidade é certamente marcada por nossa trajetória educacional e profissional como, por exemplo, ter feito um curso de engenharia e seguir carreira numa empresa nessa função.

Colunista observa que os diferentes papeis que assumimos ao longo de nossas trajetórias permitem a aquisição de uma variedade de competências que podem ser úteis na vida pessoal e no trabalho — Foto: Unsplash

Essa trajetória também pode ficar marcada por rótulos e estereótipos: engenheiros têm pensamento lógico matemático e são incapazes de ler poesia. Essa é uma simplificação que cerceia possibilidades para muitos profissionais num contexto organizacional que hoje pede inovação, criatividade e empatia.

Será que esse engenheiro não teve outras experiências que lhe permitiram desenvolver outras habilidades? Como, por exemplo, o trabalho em equipe do time de vôlei no clube desde a adolescência? Ou ter vivido sofrimento intenso com a perda de um irmão precocemente e, em decorrência, ter desenvolvido empatia com o sofrimento do outro? Esses são exemplos simples apenas para nos ajudar na compreensão de que nós, humanos, podemos ser mais do que os rótulos que os marcadores sociais nos impõem.

Trago essas questões para descortinar, além da condição imposta às mulheres durante e na pós maternidade, um outro preconceito: profissionais mais velhos não são criativos, sua inteligência fica estagnada e não merecem mais investimentos no seu desenvolvimento. Assim como ter filhos não é emburrecer, ao contrário, traz habilidades e competências ultra necessárias no mundo contemporâneo do trabalho, ficar velho também não implica emburrecimento. Vamos viver mais, teremos várias carreiras ao longo de uma vida mais longa. Profissionais mais velhos podem ser criativos e sua inteligência, que porta um vasto repertório de experiências, pode trazer soluções inovadoras para problemas complexos.

Talvez valha a pena considerar que, independente da idade, todos nós temos inúmeras competências que ultrapassam o título do nosso diploma e o job description de nossos currículos. As pesquisas têm mostrado que podemos transpor competências adquiridas na vida pessoal para o trabalho e vice-versa. Se pudermos nos apropriar dessas habilidades talvez possamos ter uma vida profissional que comporte novos papéis e identidades.

Mas não vamos nos enganar! Construir essa multiplicidade de competências decorre do fato que as carreiras naturalmente ascendentes não existem mais nas organizações, cada vez mais enxutas, e da necessidade da sobrevivência numa vida mais longeva. Mais liberdade e mais incerteza convivem nesses novos tempos, em paralelo com o aumento do custo de vida, num contexto socioeconômico que torna necessário ter múltiplas fontes de recursos financeiros e um portfólio de habilidades que atenda organizações mútuas com criatividade na solução de problemas, com carreiras plurais e polivalentes.

Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.

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