Autor de grandes novelas da TV brasileira, Manoel Carlos morreu neste sábado (10), aos 92 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família. A causa da morte não foi divulgada. Ele estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde fazia tratamento contra a Doença de Parkinson, que no último ano afetou o desenvolvimento motor e cognitivo.
Manoel Carlos será sempre lembrado como autor de telenovelas ambientadas no Leblon, bairro da zona sul carioca, protagonizadas por uma personagem chamada Helena. Longe das telas desde 2014, ele escreveu 16 telenovelas e 6 minisséries e seriados, entre elas grandes sucessos como Água Viva, Baila Comigo, Malu Mulher, Por Amor, Laços de Família, Presença de Anita, Mulheres Apaixonadas e Maysa, Quando Fala o Coração.
Nascido em São Paulo, em 14 de março de 1933, Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, conhecido como Maneco, estreou como ator no programa Teatro das Segundas-Feiras, na TV Tupi de São Paulo, apenas alguns meses depois da inauguração da televisão, em 18 de setembro de 1950. Ele até então trabalhava com teatro amador e pertencia a um grupo dirigido pelo célebre Antunes Filho.
Além de atuar, Manoel Carlos foi responsável por escrever mais de 100 textos para o Grande Teatro Tupi, exibido entre 1955 e 1963. O programa era ao vivo e contava com clássicos de autores como Luigi Pirandello, Anton Tchekhov e Jean-Baptiste Molière na interpretação de, entre outros, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Ítalo Rossi.
Em nova emissora, a TV Record, Manoel Carlos foi produtor, redator e diretor, entre 1965 e 1967, do marcante programa musical O Fino da Bossa, comandado por Jair Rodrigues e Elis Regina, e que lotava semanalmente o Teatro Record, em São Paulo, de pessoas interessadas em ouvir e ver as grandes novidades musicais. O sucesso foi tão grande que a dupla gravou três álbuns ao vivo com o nome do programa pela então gravadora Philips.
Na Record, Maneco foi produtor e diretor, ao lado de Nilton Travesso, do programa humorístico Família Trapo, exibido entre 1967 e 1971. A atração foi criada por Carlos Alberto da Nóbrega e Jô Soares, que atuava ao lado de Ronald Golias, que interpretou o marcante Bronco.
A estreia de Manoel Carlos na TV Globo ocorreu em 1972, a convite do então todo poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para ser um dos diretores do Fantástico, programa dominical lançado pela emissora em 5 de agosto de 1973. Ali ficou durante três anos. Mas a estreia como autor de telenovelas se deu apenas em 1978, aos 45 anos, com Maria, Maria, exibida as 18 horas e baseada no romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, precursor do romance regionalista, no final do século XIX.
A primeira telenovela original de Manoel Carlos estreou em 1981, com o título Baila Comigo, no horário das 20 horas. A trama era protagonizada pela primeira de suas Helenas, interpretada por Lilian Lemmertz. Desde então, as Helenas apareceram em nove telenovelas. Regina Duarte foi a intérprete mais frequente, aparecendo em três produções – História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida. Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araújo e Julia Lemmertz também interpretaram Helenas. Antes, em 1952, ele havia adaptado para a televisão o romance de Machado de Assis chamado justamente Helena.
“O nome, que se tornou marca registrada do autor, não remete, ao contrário do que muitos possam pensar, a alguma relação pessoal de Manoel Carlos. Salvo uma sobrinha-neta, ele nunca teve uma namorada, uma esposa ou uma filha chamada Helena. Sua paixão por esse nome vem da admiração pela figura que, na mitologia grega, simboliza a mulher forte, digna, capaz de atos inesperados em nome do amor. Irrefutavelmente humanas, as heroínas de Manoel Carlos são mulheres a um só tempo generosas e egoístas, que acertam e, também, cometem deslizes. Sempre movidas por amor”, descreveram os escritores do livro Autores – Histórias da Teledramaturgia, do Memória Globo e lançado em 2008.
Ao Memória Globo, Maneco explicou que a origem do nome vem de sua paixão pela mitologia grega: Helena é o símbolo da mulher forte, guerreira e capaz de tudo em nome do amor.
Sempre muito dedicado ao trabalho, Manoel Carlos deixou de finalizar apenas uma telenovela ao longo da carreira e por uma razão bastante especial. Em 1982, ele escreveu para o amigo e ator Jardel Filho a telenovela Sol de Verão, exibida na faixa das 20 horas. Jardel Filho, porém, morreu antes do término das gravações. Sem condições de escrever os últimos 17 capítulos, Manoel Carlos passou a função para Lauro César Muniz. Após o término dessa produção, ele foi para outras emissoras, como Bandeirantes e Manchete.
O retorno à Globo aconteceu em 1991, com a telenovela das 18 horas, Felicidade, quando coube a atriz Maitê Proença interpretar a Helena da vez. A partir de então, além de ter as tramas muito associadas ao bairro do Leblon, com tramas acompanhadas por grandes clássicos da Bossa Nova, o autor também tratou de vários temas sociais como agressão contra as mulheres, alcoolismo, pessoas com deficiência como a síndrome de Down, leucemia e violência urbana. Um clássico nesse sentido é Mulheres Apaixonadas, exibida entre fevereiro e outubro de 2003.
Morador do bairro da zona sul carioca, Leblon, durante mais de quatro décadas, no qual ambientou muitas de suas tramas, Manoel Carlos relatou, no mesmo livro de 2008, o seu ofício: “Minhas novelas falam do dia-a-dia, de coisas triviais, são feitas propositalmente com algumas histórias polêmicas, e tenho plena consciência de que sou pago para fazer uma novela de sucesso. Ter essa consciência é fundamental”.
Manoel era pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista de novelas Maria Carolina, que colaborou com ele em diversas obras. O autor teve outros três filhos, que morreram: o dramaturgo e ator Ricardo de Almeida (morto em 1988), o diretor Manoel Carlos Júnior (em 2012) e o o estudante de teatro Pedro Almeida (em 2014).
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