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Como a máfia está recrutando jovens por meio das redes sociais

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Máfias italianas como a Camorra, em Nápoles; a ’Ndrangheta, na Calábria; e a Cosa Nostra, na Sicília, estão usando redes sociais como TikTok e Instagram para se aproximar de jovens e adolescentes e facilitar o recrutamento de novos integrantes.

Segundo investigações de autoridades e centros de pesquisa europeus, esse processo ocorre por meio da propagação de material nessas redes que “glamouriza” a vida criminosa. Vídeos curtos e imagens exibindo carros de luxo, festas, roupas de grife e símbolos de poder são usados para criar entre jovens e adolescentes europeus a percepção de que integrar um grupo mafioso representa status, dinheiro fácil e reconhecimento social.

O conteúdo criminoso circula principalmente no TikTok, onde o algoritmo, segundo relatórios da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (GI-TOC) e da Fondazione Magna Grecia, amplia o alcance desse material entre jovens com interesses semelhantes. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como indicadores para as máfias, que passam a mapear os perfis mais engajados. A partir daí, segundo essas investigações, o contato deixa de ser público e passa a ocorrer por mensagens privadas, abrindo caminho para o recrutamento.

As primeiras abordagens já envolvem atividades ilegais. No começo, os alvos são convidados para realizarem tarefas mais simples, apresentadas como “pequenos trabalhos” rápidos e bem pagos. Entre elas estão vigiar movimentações em determinadas ruas, observar a presença policial e fazer pequenas entregas de pacotes. O pagamento por esses “trabalhos” costuma ser imediato, e as promessas de “crescimento” dentro da estrutura criminosa servem para manter o jovem vinculado ao grupo.

Na Calábria, clãs da ’Ndrangheta, hoje considerada a máfia italiana com maior influência dentro e fora do país, têm utilizado as redes sociais para identificar jovens que são mais suscetíveis ao aliciamento. Segundo investigação da Global Initiative Against Transnational Organized Crime, perfis que interagem com frequência com conteúdos de “ostentação” – por meio de curtidas, comentários ou compartilhamentos – entram no radar dos criminosos da máfia e passam a ser monitorados. A partir desse mapeamento, integrantes dos clãs fazem a abordagem direta do alvo, quase sempre por mensagens privadas.

Preferência por menores

Em Nápoles, investigações das autoridades locais revelaram que clãs da máfia, como o Amato-Pagano, também vêm produzindo conteúdos em redes sociais para tentar atrair jovens. O material veiculado nas plataformas pelos criminosos mostra cenas de motos potentes, festas em vielas e músicas populares entre adolescentes – tudo feito para reforçar a ideia de que fazer parte do grupo mafioso significa viver intensamente e “ser alguém” na cidade.

A Cosa Nostra, por sua vez, mantém uma postura mais discreta, mas também se adaptou ao recrutamento digital. A imprensa europeia revelou que Matteo Messina Denaro, o último grande chefe da máfia siciliana, acompanhava perfis no TikTok e no Instagram enquanto vivia escondido. O objetivo era monitorar tendências, hábitos e a forma como a simbologia mafiosa circulava entre os jovens, avaliando como esse ambiente poderia ser explorado para atrair novos integrantes e manter a influência da organização sobre as gerações mais novas.

O modelo desenvolvido pelas máfias italianas vem sendo replicado por outras organizações criminosas na Europa. Segundo a GI-TOC, grupos criminosos na França, Bélgica, Alemanha, Holanda, Espanha e Suécia passaram a adotar mecanismos semelhantes de recrutamento digital. Em todos os casos, o padrão se repete: exposição contínua a conteúdos que glamourizam o crime, identificação dos jovens mais engajados e, por fim, abordagem privada para a execução de tarefas ilegais.

A preferência dos grupos criminosos por adolescentes não é casual. Segundo as organizações investigadoras, a utilização de menores reduz o risco jurídico para esses grupos, já que, em muitos países europeus, as punições aplicadas a jovens são mais brandas ou inexistentes. Com isso, tarefas ilegais de maior exposição — como transporte de drogas, vigilância de pontos estratégicos e apoio logístico — acabam sendo delegadas a adolescentes recém-recrutados.

Os números confirmam a dimensão do problema. Em Bruxelas, 65% dos detidos por tráfico de drogas são menores de idade. Nos portos da Holanda, cerca de 15% dos jovens envolvidos em operações ligadas ao tráfico têm menos de 18 anos. No Reino Unido, redes criminosas conhecidas como county lines já recrutaram crianças de apenas sete anos para transportar drogas. Em Madri, autoridades estimam que cerca de 1.700 menores estejam ligados a gangues de origem latino-americana. Na Suécia, o número de suspeitos com menos de 15 anos envolvidos em homicídios triplicou entre 2023 e 2024.

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