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GDF pode aportar ao BRB no caso do Master

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O anúncio de que o governo do Distrito Federal (GDF) admitiu a possibilidade de fazer aportes ao Banco de Brasília (BRB) – para cobrir prejuízos nas operações com o Banco Master – coloca o pagador de impostos, mais uma vez, como fiador de fraudes.

As estimativas iniciais para o prejuízo do BRB estão entre R$ 1,6 e R$ 2,2 bilhões, mas analistas estimam que podem ser ainda maiores. O rombo é resultado da aquisição de carteiras de títulos fraudulentos durante as negociações de compra de uma parte do Master pelo banco regional.

Luís Garcia, sócio da Tax Group e especialista em Governança e Compliance, afirma que, caso o governo do DF faça aportes para sanar prejuízos ao BRB, recursos públicos serão utilizados para capitalizar o banco. Como esse dinheiro tem origem na arrecadação tributária, ou seja, em impostos pagos por cidadãos e empresas, a conta acaba, mesmo que de forma indireta, ficando para o contribuinte.

Por outro lado, os potenciais ganhos privados – de quem operou ou intermediou a transação irregular – foram “capturados antes mesmo de a crise se tornar pública”, explica Garcia.

“Em termos econômicos e tributários, isso é equivalente à socialização de prejuízos, que infelizmente é um tema recorrente na história recente do Brasil – como se a responsabilidade por decisões de investimento e avaliação de risco fosse puramente do setor público, enquanto os benefícios (em termos de rentabilidade) eram apropriados por investidores privados”, afirma.

  • BRB afirma que eventual aporte do GDF por escândalo do Master “não retira recursos de políticas públicas”

  • TCU - Banco Central

    Em meio à crise institucional, bancos se unem contra a intervenção em decisões do BC

BRB afirma suficiência patrimonial

Outro movimento que estaria sendo feito pelo Banco de Brasília é buscar crédito por meio de instrumento para instituições com dificuldade em captação. Segundo o site Valor Pipeline, na semana passada, o BRB teria contatado gestoras de crédito para investimentos em Depósito a Prazo com Garantias Especial (DPGE 2) da ordem de R$ 700 milhões.

Esse tipo de operação foi criada para ajudar instituições de pequeno e médio porte a se capitalizar contando com as garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Anteriormente, o instrumento não era utilizado pelo BRB e, como a sondagem veio simultaneamente ao anúncio de possível ajuda do GDF, chamou a atenção do mercado.

No início da noite desta segunda-feira (19), contudo, o Banco de Brasília divulgou uma nota à imprensa na qual reafirma sua suficiência patrimonial e que segue sólido, estável e operando normalmente, sem qualquer risco de intervenção.

Segundo o BRB, as apurações do Banco Central e das auditorias independentes que contratou seguem em curso e qualquer dado não oficial divulgado é meramente especulativo.

O banco ainda disse que dispõe de plano para recomposição de capital e negou que eventuais aportes do GDF possam retirar recursos previstos no orçamento para políticas públicas. Segundo a nota, o BRB estuda mecanismos para iniciar a venda dos ativos que adquiriu do Master.

GDF ainda não sabe se será preciso aporte ao BRB

Questionado pela Gazeta do Povo sobre a real disposição em fazer os aportes ao BRB, o governo do Distrito Federal, por meio da Secretaria de Economia, afirmou que ainda não tem como precisar a situação.

“O GDF acompanha com serenidade a situação econômica da instituição [BRB], não podendo, de antemão, se manifestar sobre valores para aportes financeiros e, até aqui, nem mesmo se haverá necessidade de tal ação”, disse.

A Gazeta do Povo também enviou ao BRB questionamentos sobre os valores aportados e as perdas do banco no caso do Master. No entanto, até a publicação desta reportagem, não recebeu resposta. O espaço segue aberto para manifestações do Banco de Brasília.  

Recursos para cobrir rombo do Master deixam de cumprir sua função pública

Luís Garcia ainda explica que, caso seja realmente confirmada a venda de carteiras de títulos inexistentes para o BRB, a transferência desses ativos compromete não apenas o patrimônio do banco estatal – e, eventualmente, sua liquidez -, mas também o capital que poderia ser utilizado para fins públicos e sociais. Ele cita, por exemplo:

  • expansão de crédito para pequenas e médias empresas;
  • financiamento habitacional popular;
  • fomento à atividade econômica local.

“Ao invés disso, o dinheiro público estaria sendo usado para cobrir prejuízos causados por uma gestão deficiente ou eventualmente criminosa”, afirma. Ou seja, além de ter os recursos dos tributos que paga destinados a arcar com perdas resultantes do escândalo, o contribuinte ainda perderia os benefícios trazidos pelo investimento desse dinheiro em outras frentes.

BRB quer reaver recursos com ativos do Master

A sinalização do possível socorro financeiro do GDF ao BRB ocorre no momento em que a gestão de ativos do banco estatal segue em foco, em razão dos desdobramentos das investigações e do aprofundamento da crise. A percepção de piora no escândalo se deve, até mesmo, a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU), que indicam a escalada da interferência jurídico-política no caso.

Em nota à imprensa, na quarta-feira (14), o BRB disse que avança nas tratativas para reaver recursos que pertencem à instituição junto ao liquidante do Master. A informação foi divulgada no mesmo dia da deflagração da segunda fase da operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga as fraudes no Master.

“Como credor na liquidação, o banco respeita a ordem de prioridade dos demais credores, mas segue atuando com firmeza para recuperar todos os compromissos pendentes”, disse o banco.

Segundo o BRB, a segunda fase da Operação Compliance Zero contribui para esse objetivo, pois o bloqueio de bens amplia as chances de devolução dos recursos e fortalece as medidas de recuperação. Ao todo, foram bloqueados R$ 5,7 bilhões na operação da PF.

Restituição é feita conforme hierarquia de prioridades

Luis Miguel Mas Santacreu, analista sênior de instituições financeiras da Austin Rating, afirma que tem prioridade nessa lista de restituição causas trabalhistas e tributárias, ou seja, funcionários do Master que venceram processos trabalhistas e o Fisco, seja federal, estadual ou municipal.

Há também os depositantes, seja à vista, de poupança ou a prazo, que estão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Quem investiu em letras financeiras, de câmbio, hipotecárias, de crédito imobiliário, do agronegócio e de desenvolvimento, bem como em operações compromissadas, também pode receber até R$ 250 mil do FGC. Segundo divulgação recente, as primeiras restituições serão feitas já na próxima semana.

Em seguida, ele afirma que vêm os demais credores, como o próprio BRB. O analista explica que o FGC também é um credor do Master e que, deste modo, buscará reaver seus recursos. Assim, o Fundo também entra na lista de credores que devem ser contemplados com os ativos liquidados do banco.

BRB afirma solidez e continuidade de operações

Neste cenário, o BRB buscou tranquilizar os clientes e investidores, assegurando sua saúde financeira e administrativa. “O banco reforça que permanece sólido, operando normalmente e garantindo a oferta completa de serviços financeiros, incluindo crédito, investimentos e atendimento nos canais digitais e presenciais”, disse em nota na quarta-feira (14).

No dia anterior, 13 de janeiro, a instituição financeira, em outra nota, já havia declarado sua estrutura de capital, com o objetivo de afirmar sua liquidez e capacidade operativa. Segundo o BRB, seu patrimônio líquido é de R$ 4,5 bilhões e o patrimônio de referência chega a R$ 6,5 bilhões.

O patrimônio líquido representa os recursos efetivos de que o banco dispõe para pagar suas obrigações, cumprir com saques dos clientes – ele é calculado a partir da diferença entre ativos e passivos do banco. Já o patrimônio de referência é uma medida regulatória exigida pelo Banco Central, e sinaliza o capital que uma instituição financeira deve manter para cobrir riscos de crédito, de mercado e operacionais, garantindo assim sua solvência.

Socorro do GDF sinaliza impacto do prejuízo para o BRB

Apesar dos números apresentados, a necessidade de um aporte externo pode indicar que as perdas com o Master, de algum modo, cheguem a impactar o equilíbrio financeiro do Banco de Brasília.

Segundo o Banco, se for necessário, o GDF poderá aportar capital na Instituição “de modo a assegurar que o BRB continue operando dentro dos limites prudenciais e regulatórios”.

Em dezembro do ano passado, após a liquidação do Master em 18 de novembro pelo Banco Central, o BRB informou que contratou uma investigação independente para apurar os fatos relacionados ao Banco Master. Desde então, a apuração está sendo conduzida pelo escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da Kroll Associates Brasil.

BRB adquiriu cerca de R$ 16 bilhões em ativos do Master

As investigações da Polícia Federal (PF), que culminaram na operação que mira a cúpula do Banco Master, tiveram seu ponto de partida em uma proposta de aquisição de participação acionária do Master pelo BRB em março do ano passado. O Banco Central negou a aquisição meses depois, em setembro.

Mesmo sem a efetivação da compra, o BRB teria adquirido cerca de R$ 16 bilhões em carteiras de crédito do Master. Segundo as investigações, cerca de R$ 12,2 bilhões desse montante diz respeito a títulos fraudulentos, até mesmo inexistentes, repassados para o BRB. A suspeita é de que essas operações serviram para maquiar o balanço do Master, utilizando as negociações com o banco estatal para dar liquidez a ativos “podres”.

Master e BRB divergiram sobre prejuízos durante acareação

Às portas da virada de ano, versões conflitantes do Master e do BRB sobre os prejuízos à instituição regional deixaram evidentes que há descompasso entre as informações de ambas as instituições. Durante depoimento à Polícia Federal, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou que o BRB não teve qualquer prejuízo em relação aos negócios com sua instituição.

Por sua vez, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa afirmou que as perdas do banco estatal chegavam a R$ 2,2 bilhões. O valor se deve a títulos fraudulentos que ainda não haviam sido trocados pelo Master quando de sua liquidação.

Na acareação, as defesas buscaram minimizar a discrepância, afirmando tratar-se apenas de “percepções distintas sobre o mesmo fato”. Segundo a defesa de Vorcaro, o valor dos títulos ainda não trocados seria de R$ 1,6 bilhão. Além disso, o Master teria dado garantias de R$ 9 bilhões para essas carteiras, além de um deságio de 30% para facilitar sua troca pelo BRB.

Mecanismos robustos podem garantir novas fraudes

Luís Garcia, do Tax Group, afirma que, quando o Estado intervém para “salvar” uma instituição pública de prejuízos decorrentes de decisões erradas, o ônus recai sobre o orçamento público, financiado por impostos. Na visão do tributarista, a saída não pode ser simplesmente esconder o problema à vista do público, ou transferir perdas para o contribuinte. É preciso:

  • responsabilização civil e penal dos gestores envolvidos;
  • investigações independentes e transparentes;
  • reforço de controles internos e de governança no BRB e no setor público como um todo;
  • revisão crítica das políticas fiscais que permitem esse tipo de “socialização de prejuízos”.

“Somente assim é possível evitar que episódios como o do Master sigam ocorrendo e que o pagador de impostos continue arcando com os custos das fraudes e dos riscos alheios”, defende.

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