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Romance ‘A hora mágica’ descreve a cura e a conversão espiritual de um psiquiatra numa aldeia indígena | Eu &

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“A hora mágica”, do jornalista e psicólogo Carlos Messias, funciona como os antigos romances de tese: um personagem expõe uma ideia e outro personagem (ou situação) a comprova ou não. A ideia aqui é que as substâncias psicodélicas têm propriedade de cura psíquica e vivência espiritual.

O protagonista é o psiquiatra Caio Bandeira, que se encontra em situação difícil. Saído de um relacionamento de 15 anos, ele chega a um momento-limite quando um paciente se suicida no hospital em que trabalha. Sofrendo de uma depressão renitente que só piora com esse episódio, Caio é desligado do hospital para “se tratar”. Confuso e recorrendo a um arsenal de drogas lícitas e ilícitas, decepcionado com a psiquiatria, procurando “outro paradeiro profissional”, ele não consegue processar o luto da morte de sua mãe.

Numa festa, Breza, um colega de Caio, discorre sobre “tratamentos holísticos” e passa a descrever as descobertas da chamada renascença psicodélica — “a próxima revolução da saúde mental”. Além do aspecto médico, o discurso de Breza destaca os efeitos “espirituais” de substâncias como a cetamina, a ibogaína e sobretudo a ayahuasca.

Capa de “A hora mágica’ — Foto: Divulgação

Para o amigo de Caio, o mergulho na espiritualidade não se dissocia dos efeitos terapêuticos e transformadores: “Você se reconecta com a natureza, por assim dizer, e a cura parece vir de dentro”. Os psicodélicos, diz ele, ativam receptores de serotonina e levam a acessar “estados não-ordinários” de consciência.

A maior demonstração da cura, prossegue Breza, é a ação dos psicodélicos na abordagem de traumas, diluindo uma “maçaroca” de sintomas. “É como se durante a experiência psicodélica ocorresse uma diluição do ego”, o que “permite que o paciente veja os traumas sob outra perspectiva”.

Caio, ainda se acreditando um embaixador da racionalidade, rejeita o “papo de hippie” e não vê como “beber uma graxa alucinógena” pode propiciar uma elevação espiritual, muito menos ser utilizada na rotina de um hospital psiquiátrico. A curiosidade pela experiência alucinógena, no entanto, fala mais alto. É assim que ele vai atrás de um ritual de ayahuasca e rapé numa espécie de seita burguesa nas imediações de São Paulo.

A sequência de experiências provocada pelo que Caio passará a designar como “a Força” começa com a imagem, no espelho, de seu rosto derretendo — um prenúncio da desmontagem interna que o leva a reviver as violências sofridas e testemunhadas na infância. “Era como se todo o meu julgamento tivesse cessado por alguns instantes”, ele constata. A turbulenta viagem acaba em sensação de bem-estar — “como se a nuvem negra que há anos insistia em me acompanhar finalmente tivesse se dissipado”.

A possibilidade de um novo “eu” torna ainda mais sem sentido a vida de Caio. Por um descuido com as instalações elétricas, sua casa pega fogo, e o incêndio mata seu cachorro, “o único ser vivo que eu ainda amava”. De uma hora para outra, a covid chega ao Brasil, e com ela a quarentena. Num certo dia, o céu de São Paulo escurece com a fuligem das queimadas no Pantanal. É hora de mudar de vida e de lugar.

Caio encontra na internet a possibilidade de fazer um trabalho voluntário contra o vírus pandêmico na aldeia indígena do povo (fictício) ika yubë, no Acre. A jornada conduzida pelo cacique Sibiruá será um aprendizado sobre como manejar o processo de cura desencadeado pela Força e principalmente sobre a cultura da aldeia. Vêm da terra e dos animais diversas “medicinas”, que convidam “cada um de nós a arrancar de dentro e queimar nas brasas tudo aquilo que não serve mais”.

De posse da sensação de ser uma pessoa diferente do que era, Caio se apaixona por uma fotógrafa australiana, Sarah, que havia algum tempo morava na aldeia, e com quem vive uma relação transcendental. Ele adere totalmente à sabedoria local, à qual atribui a onipresença da alegria na comunidade: “Mais do que um estado de humor, a alegria parecia um estilo de vida, um valor inegociável para os ika yubë, uma medicina preventiva de eficácia ancestralmente provada”.

Carlos Messias fez pós-graduação no influente Centro Avançado de Medicina Psicodélica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e seu livro tem força testemunhal. É mais um relato interessante do que propriamente um romance bem-acabado, e a edição ganharia bastante se tivesse passado por uma revisão que eliminasse seus numerosos erros.

A hora mágica – Carlos Messias. Patuá. 278 págs., R$ 60,00

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