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A escolha de (não) deixar para trás conflitos no trabalho | Tatiana Iwai

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Em seu último vestibular, a Fuvest convidou os candidatos a refletir na redação sobre o perdão e seus limites. Não é um convite trivial e o tema me chamou particular atenção, tanto pela sua dificuldade quanto pela sua complexidade. Por isso, estendo o convite da Fuvest aos leitores desta coluna e proponho que, assim como os vestibulandos, façamos também uma reflexão sobre o perdão.

Pode causar certa estranheza falar sobre perdão em uma coluna sobre trabalho. Em geral, associamos o perdão a um processo de foro íntimo, típico de relações familiares ou amorosas e tendemos a deixá-lo fora da esfera profissional. Mais que isso, perdão é frequentemente enquadrado como uma questão de virtude, moral ou espiritualidade. Com isso, falar de perdão no trabalho parece deslocado, quase ingênuo. É um engano. Conflitos mal resolvidos e ressentimentos persistentes fazem parte da vida organizacional. Não à toa, conflitos interpessoais estão entre os principais estressores de trabalho e figuram como uma das maiores barreiras à colaboração nas empresas.

O processo de perdão é complexo porque cria assimetrias de partida a depender do papel que assumimos no conflito. Quando erramos, esperamos compreensão e segundas chances. Queremos que o outro seja capaz de entender as pressões que enfrentamos na situação, não nos reduzir àquele episódio negativo e, com isso, relevar e seguir adiante. Já quando somos nós que sofremos a ofensa, nossas expectativas mudam. Queremos que o ofensor reconheça não apenas que algo importante foi ultrapassado e violado, mas que ele ofereça uma reparação à altura da falha. Em parte, essa incoerência se dá porque o papel de perdoar é altamente demandante.

Diante de uma ofensa, as motivações em relação ao outro rapidamente passam a ser dominadas pela negatividade. Evitamos o contato, ignoramos, tentamos manter distância. Ou somos tomados por impulsos retaliatórios, das formas mais sutis às mais explícitas de se vingar, sabotar e fazer o outro pagar na mesma moeda. Ao mesmo tempo, perde-se a orientação positiva e benevolente em relação ao outro. É por isso que perdoar é um processo de regulação emocional tão exigente. O perdão não envolve apenas reduzir emoções negativas persistentes – raiva, ressentimento, desejo de retaliação – o que, por si, já não é trivial. Mas para além disso, demanda também um outro movimento, qualitativamente distinto: reconstruir algum grau de positividade em relação a quem causou o dano. É justamente essa combinação de dois movimentos simultâneos desafiadores, que ajuda a explicar por que conceder perdão costuma ser muito mais difícil do que pedi-lo.

Esse caráter lento e ambivalente do perdão entra em choque direto com a dinâmica organizacional. O tempo do perdão raramente coincide com o tempo do trabalho. Pressões por desempenho, prazos apertados, convivência forçada e assimetrias de poder reduzem o espaço para reconhecimento e reparação do dano pelo ofensor e para a elaboração emocional do ofendido – fatores que, em geral, facilitam o perdão. No trabalho, esperase que as pessoas sejam profissionais, não necessariamente que perdoem.

Conflitos interpessoais estão entre os principais estressores de trabalho e figuram como uma das maiores barreiras à colaboração nas empresas, nota colunista — Foto: Pexels

É justamente nesse descompasso entre o tempo do perdão e o tempo do trabalho que a reconciliação emerge como uma possibilidade distinta, ainda que o perdão não tenha ocorrido. No ambiente organizacional, as relações raramente são escolhas livres: a interdependência é alta, o tempo é escasso e o custo de romper vínculos costuma ser elevado. Nessas condições, esperar que a elaboração emocional completa após uma ofensa seja um pré-requisito para a continuidade da relação é, muitas vezes, inviável.

Reconciliar não é resolver emocionalmente a ofensa, mas deliberar como a relação pode ser reconstruída depois do que aconteceu e, mais importante, sob quais limites. Trata-se de reorganizar a interação para que a relação de trabalho avance sem novas perdas e sem alimentar novas escalada do conflito desnecessárias. Nada disso apaga a ofensa ou sinaliza que algo foi superado e esquecido. No trabalho, esse é um caminho possível: sem abdicar da memória do que aconteceu, reconstruir a relação antes de reconstruir as emoções.

Talvez seja por isso que a proposta de redação da Fuvest sobre os limites do perdão seja, ao mesmo tempo, tão provocativa e incômoda. A reflexão central passa por reconhecer que o perdão tem valor, mas também tem tempo, custo e condições. No ambiente de trabalho, nem sempre essas condições estão dadas e ignorar isso não torna os conflitos menores. Ao deslocar o perdão do campo da obrigação moral para o da escolha situada, abrimos espaço para respostas mais realistas aos conflitos que atravessam a vida organizacional.

Tatiana Iwai é professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper. Coordenadora do Núcleo de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Centro de Estudos em Negócios do Insper. Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao longo de sua carreira, atuou como consultora de mudança organizacional, desenvolvendo projetos para empresas nacionais e multinacionais.

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