A votação do projeto de lei que cria o marco legal dos serviços de “streaming” no Brasil foi adiada no ano passado no Senado após reuniões de representantes do governo americano com parlamentares. Fontes do Palácio do Planalto identificaram pressões nas negociações na reta final de 2025, em um contexto em que havia esforços para que as relações entre o Planalto e a Casa Branca fossem normalizadas.
Procurada, a Embaixada dos Estados Unidos não respondeu. O relator do texto, senador Eduardo Gomes (PL-TO), confirma reunião com representantes do governo americano, mas nega que isso tenha provocado o adiamento da votação.
O projeto de lei (PL), que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados, estabelece que as plataformas de “streaming” recolham a Codecine, contribuição voltada ao desenvolvimento da indústria cinematográfica nacional. Havia uma expectativa de que o projeto fosse à votação no Senado, com mudanças, em dezembro, mas contatos dos americanos em nome das “big techs” teriam inviabilizado essa apreciação.
O relator confirmou que se reuniu no ano passado com as “big techs” e com o conselheiro econômico da Embaixada, Matthew Lowe, mas negou que a proposta deixou de ser pautada em função dessas conversas. Mesmo após a reunião, ele insistiu para colocar o projeto na pauta. O deputado federal Aliel Machado (PV-PR) afirmou ao jornal “O Globo” que representantes da Embaixada defenderam a parlamentares brasileiros a importância de o projeto do streaming ser debatido nas comissões do Congresso.
“Eles colocaram, de forma muito ponderada, que eram contra o regime de urgência”, disse Machado.
Dentre as mudanças aguardadas no texto aprovado na Câmara está a possível retomada da isenção sobre as remessas das plataformas ao exterior. Além disso, a criação da “Condecine-Streaming” será mantida, mas com redução da alíquota de 4% da receita bruta para 3%.
O novo texto deve prever ainda que as plataformas com mais de 50% de conteúdo nacional no catálogo tenham um desconto de metade da tributação, que ficaria em 1,5%. A proposta aprovada da Câmara estabelecia desconto de 60% para as plataformas brasileiras que investirem na produção de conteúdo nacional. Os serviços de compartilhamento de vídeos terão alíquota de 0,8%.
Vice-presidente do Senado, Gomes disse que o PL pode ser aprovado no primeiro semestre. Executivos de “big techs” esperam que a pauta volte a ser discutida ainda em fevereiro. Gomes disse ver com naturalidade que as “big techs” tenham pontos de interesse no projeto e por isso defende um texto equilibrado.
Nessa linha, o relator deve apresentar um novo parecer buscando viabilizar a votação. Uma manobra regimental do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), devolveu a palavra final ao Senado e, sendo aprovada, a matéria segue à sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo fontes, as mudanças foram alinhadas por uma ala do governo liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, no fim de 2025. O acerto ocorreu num momento de aproximação de Lula com o presidente americano, Donald Trump.
A tramitação do projeto estabeleceu uma disputa entre Câmara e Senado sobre quem daria a palavra final no assunto. Após ser aprovado no Senado, o texto relatado por Gomes e de iniciativa do senador Nelsinho Trad (PSD-MS) seguiu para a análise dos deputados, mas foi arquivado. Em outra frente, o deputado Dr. Luizinho (PP-RJ) foi nomeado relator de um projeto de lei apresentado pelo então deputado e hoje ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Paulo Teixeira (PT-SP). Como a origem da proposta é a Câmara, a palavra final é da Casa.
Esse texto foi aprovado na Câmara em novembro e, ao chegar no Senado, houve reação. Alcolumbre deu um despacho arquivando, com base em artigo que estabelece que “quando sobre a mesma matéria houver projeto em ambas as Câmaras, terá prioridade, para a discussão e votação, o que primeiro chegar à revisão”, o que dá prioridade ao projeto original do Senado. Caso seja aprovado o parecer de Gomes, a matéria irá à sanção presidencial.
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