A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, saiu fortalecida da eleição antecipada de domingo ao conduzir o Partido Liberal Democrata (PLD) a uma vitória esmagadora na Câmara Baixa — a segunda eleição nacional realizada no Japão em menos de 16 meses.
O resultado deve ser interpretado por Takaichi como um aval claro dos eleitores para avançar em sua agenda fiscal expansionista e em uma política de segurança nacional mais assertiva, que inclui cortes de impostos e aumento expressivo dos gastos com defesa. Ao mesmo tempo, essas promessas já vinham causando apreensão nos mercados globais antes do pleito, o que coloca suas próximas declarações sob escrutínio de investidores.
A seguir, os principais pontos para entender o novo cenário político japonês.
Por que o PLD venceu com tanta folga
O partido que domina a política japonesa há décadas se beneficiou do chamado “efeito carona” da popularidade de Takaichi. Desde que assumiu o cargo, em outubro, sua taxa de aprovação tem se mantido em torno de 70%, bem acima do apoio tradicional ao PLD, que gira em torno de 40%.
Com um discurso mais nacionalista do que o de seus antecessores, Takaichi conseguiu reconquistar eleitores conservadores que haviam se afastado do partido em eleições anteriores, segundo Rintaro Nishimura, do The Asia Group. Temas como revisão constitucional, oposição ao uso de sobrenomes separados e uma postura mais dura em política externa e segurança encontraram forte ressonância nesse eleitorado.
Essa guinada à direita também apertou o espaço para partidos que disputam o mesmo campo ideológico, como o Sanseito e o Partido Democrático para o Povo, que tiveram dificuldades para ampliar sua representação parlamentar.
Outro fator relevante foi o apelo entre eleitores mais jovens. A ascensão da primeira mulher ao cargo de primeira-ministra trouxe renovação a um sistema político historicamente dominado por homens mais velhos e, muitas vezes, herdeiros políticos.
Do outro lado, a eleição representou um duro golpe para a oposição. A Aliança Reformista Centrista — formada às pressas pelo Partido Democrático Constitucional do Japão (CDP) e pelo Komeito, antigo aliado do PLD — sofreu uma derrota expressiva.
Para Tobias Harris, da consultoria Japan Foresight, o pleito simbolizou mais do que a popularidade de Takaichi. “Foi também o colapso quase total da oposição tradicional. Os eleitores escolheram alguém que fala dos desafios atuais e futuros, enquanto a oposição permaneceu presa a debates do pós-guerra”, afirmou.
Impactos na política econômica e fiscal
Com uma maioria robusta no Parlamento, Takaichi passa a ter amplo espaço para implementar sua agenda. Analistas avaliam que isso deve resultar em expansão dos gastos públicos e avanço de políticas fiscais mais agressivas.
Um dos pontos mais observados será a promessa de congelar por dois anos o imposto sobre consumo de 8% incidente sobre alimentos. A medida, descrita por Takaichi como um “sonho sincero”, busca aliviar o impacto da inflação sobre famílias de baixa e média renda. Apesar do silêncio da primeira-ministra sobre o tema durante a campanha — em meio à alta dos rendimentos dos títulos públicos —, economistas acreditam que recuar agora teria alto custo político.
Em entrevista após a eleição, Takaichi indicou que pretende acelerar o debate, levando o tema a um conselho multipartidário de reforma da seguridade social e, se houver consenso, apresentar rapidamente um projeto de lei.
Outro ponto sensível é a política migratória. O governo já endureceu regras sobre residência permanente e posse de terras por estrangeiros. Enquanto partidos aliados defendem limites mais rígidos, a oposição adota um discurso mais inclusivo, sinalizando que o tema seguirá como foco de disputas políticas.
Como os mercados devem reagir
Antes da eleição, a perspectiva de aumento dos gastos públicos pressionou os mercados: o iene se desvalorizou e os rendimentos dos títulos do governo japonês atingiram níveis recordes. O corte do imposto sobre alimentos, sozinho, pode reduzir a arrecadação em cerca de 5 trilhões de ienes por ano.
Ainda assim, a bolsa japonesa alcançou máximas históricas, em um movimento batizado por analistas de “trade Takaichi” — ações em alta, juros longos subindo e moeda enfraquecida.
Para Stefan Angrick, da Moody’s Analytics, essa reação é paradoxal. O déficit japonês está no menor nível entre os países do G7, e a situação fiscal é a mais sólida dos últimos 15 anos. Outros economistas, como Shigeto Nagai, da Oxford Economics, acreditam que Takaichi buscará equilibrar estímulo fiscal com prudência, especialmente para evitar nova disparada nos rendimentos dos títulos públicos.
Esse cenário também aumenta a pressão sobre o Banco do Japão, que pode acelerar a normalização da política monetária diante de uma demanda doméstica mais forte e de um iene mais fraco.
Consequências políticas internas
O PLD conquistou 316 das 465 cadeiras da Câmara Baixa, garantindo uma supermaioria de dois terços. Isso permite ao governo controlar comissões parlamentares, derrubar vetos da Câmara Alta e iniciar o processo de revisão constitucional — um objetivo histórico do partido e reiterado por Takaichi após a eleição.
O resultado inevitavelmente gera comparações com Shinzo Abe, aliado e mentor da atual primeira-ministra. Assim como Abe após sua vitória em 2012, Takaichi emerge com forte capital político e potencial para um longo período no poder.
Analistas também observam possíveis mudanças na relação entre o governo e o Ministério das Finanças, frequentemente criticado por defender austeridade fiscal excessiva. O manifesto do PLD sinaliza abertura para orçamentos plurianuais e novas fontes de financiamento, indicando uma possível mudança de rumo.
Apesar da vitória expressiva, os desafios são significativos. A prioridade imediata será aprovar o orçamento do próximo ano fiscal, após o atraso causado pela eleição antecipada. Um orçamento provisório deve ser necessário para cobrir o início do período fiscal em abril.
No médio prazo, Takaichi deverá detalhar sua política de estímulo ao investimento doméstico, com foco em setores de alto crescimento e na redução da vulnerabilidade do país às oscilações cambiais.
No campo diplomático, o equilíbrio entre Estados Unidos e China será crucial. A primeira-ministra viajará a Washington em março para se reunir com o presidente Donald Trump, enquanto a aproximação entre Washington e Pequim pode colocar Tóquio em uma posição delicada. As tensões recentes com a China, agravadas por declarações sobre Taiwan, seguem sem solução clara.
Para Harris, da Japan Foresight, a vitória dá a Takaichi mais liberdade de ação, mas não elimina os problemas. “Os mercados estão atentos a cada passo. Há consenso sobre gastar mais com defesa, mas nenhum sobre como financiar isso. O poder facilita as decisões, mas não torna os desafios menores.”
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