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Fim de acordo nuclear pode acelerar corrida armamentista tripolar

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O último tratado de desarmamento nuclear em vigor entre os EUA e Rússia, o Start III ou New Start (Tratado de Redução de Armas Nucleares Estratégicas, em português), expirou nesta quinta-feira (5), sem confirmação de avanço de um novo acordo entre o presidente americano, Donald Trump, e o ditador russo, Vladimir Putin.

Com isso, o mundo entra em um novo período de incertezas, marcado pelo crescente temor dos países e organizações internacionais em ver nascer uma nova corrida armamentista, não entre duas, mas entre as três principais potências militares do mundo: EUA, Rússia e China.

Em vigor desde 2010, o tratado tinha como finalidade limitar o arsenal nuclear de Moscou e Washington, especialmente em relação ao número de armas nucleares estratégicas que poderiam ser implantadas e mantidas em prontidão por ambos (um máximo de 1.550 ogivas nucleares e 700 sistemas de mísseis balísticos para cada uma das duas potências, sejam eles lançados por terra, mar ou ar). Em fevereiro de 2021, o New Start foi renovado por mais cinco anos.

Moscou chegou a apresentar uma oferta de extensão do acordo por um ano, mas Trump ignorou o apelo sob o argumento de que a China deveria participar de qualquer negociação nuclear em andamento, algo que Pequim rejeita por alegar que não possui arsenal equiparável às outras duas potências.

EUA e Rússia detêm 87% das armas nucleares do mundo, enquanto China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel completam a lista de países com arsenais nucleares. Mas a China, em especial, se tornou uma preocupação para o governo americano devido à rápida expansão do seu arsenal nuclear e a previsão de que, em uma década, possa chegar a ter 1.500 ogivas nucleares.

Apesar da pressão de Donald Trump para que Xi também assine um tratado de contenção, ainda existem especulações sobre uma renovação do New Start. Nesta quinta, três fontes a par do assunto disseram ao portal Axios que delegações americana e russa estariam negociando uma prorrogação do tratado.

Fim do controle de armas nucleares pode provocar nova corrida armamentista?

Segundo o think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), a expiração do tratado bilateral não significa imediatamente que os países iniciarão uma nova corrida armamentista como ocorreu na Guerra Fria.

Isso dependerá diretamente das ações adotadas: se uma potência tomar a iniciativa de aumentar seu arsenal, então, um ciclo de ação e reação será iniciado e a outra parte também se sentirá na obrigação de ampliar seu poderio. Mas este ciclo pode ser limitado por restrições orçamentárias nacionais e outras prioridades da agenda geopolítica das potências.

Um compilado de dados do Conselho de Riscos Estratégicos (Council on Strategic Risks, em inglês) expôs uma assimetria entre a expansão dos arsenais nucleares americano, russo e chinês nos últimos 13 anos.

Segundo o levantamento, Moscou expandiu seu número de sistemas com capacidade nuclear em 22% em média, incluindo um aumento de 20% no número de submarinos com armas nucleares e mísseis balísticos lançados por submarinos (SLBMs). O aumento do arsenal é relativo a armas nucleares não estratégicas.

Pequim, por sua vez, apresentou um crescimento ainda mais acelerado, aumentando o número de mísseis balísticos de alcance intermediário em 635% e adicionando novos tipos de veículos de lançamento estratégicos e não estratégicos.

Já Washington reduziu em 17% seu arsenal de mísseis balísticos lançados por submarinos (SLBMs). Enquanto o Exército chinês registrou um aumento de 88% em sua força de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM), os EUA diminuíram em 11% no período de duração do New Start.

Os dados mostram que a Rússia já está investindo pesado em seus arsenais estratégicos, bem antes da expiração do acordo bilateral com os americanos. A China, que não faz parte do tratado, também tem expandido drasticamente seus recursos militares.

A Rússia violou ou abandonou diversos acordos de controle de armas

Desde 2010, quando o tratado nuclear foi assinado, a Rússia violou, suspendeu ou abandonou diversos acordos importantes de controle de armas. Dois deles são recentes: em 2022, Moscou suspendeu as atividades de inspeção no âmbito do New Start, um dos benefícios estratégicos de transparência e previsibilidade em relação aos arsenais dos adversários; em 2023, suspendeu a participação no New Start e retirou a ratificação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

No ano passado, Putin fez uma proposta mais restrita aos EUA: o país continuaria a observar as principais restrições quantitativas do New Start por um ano após o seu término, desde que os EUA se abstivessem de medidas que pudessem minar o “equilíbrio de dissuasão existente”, uma aparente referência ao sistema de defesa antimíssil Domo Dourado, proposto por Trump.

A oferta do ditador Putin para a prorrogação do acordo não incluiu o retorno das inspeções ou outras medidas de transparência associadas ao tratado, o que coloca em xeque sua alegada intenção de manter os limites de não proliferação de armas nucleares.

Na análise do CSIS, essas ações de Rússia e China sinalizam uma crescente dependência de armas nucleares por parte dos adversários dos EUA, particularmente para ambições regionais de intimidar aliados e parceiros dos americanos e tentar criar uma cisão entre eles e Washington.

Novas prioridades de segurança e déficits orçamentários mudam agenda das potências

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), um think tank de pesquisa britânico, destaca que EUA e Rússia atualmente têm paridade em números e sistemas.

O cenário geopolítico de segurança mais amplo e os esforços para facilitar o fim da guerra na Ucrânia podem contribuir para manter o status quo em relação a uma corrida armamentista. Em resumo, Putin pode continuar buscando manter boas relações com Trump, a fim de se recuperar economicamente.

A situação financeira dos países também sinaliza que as potências não estariam dispostas a investir pesado em armas nucleares. A Rússia, por exemplo, encerrou 2025 com um déficit orçamentário de 2,6% do PIB e receitas de petróleo e gás drasticamente reduzidas devido à sua guerra contra a Ucrânia e às sanções internacionais.

Já os EUA parecem estar muito mais interessados em construir defesas contra mísseis nucleares do que em implantar mais deles. Isso ficou evidente com a ordem executiva assinada por Trump no início de 2025, defendendo a construção do Domo Dourado, que pode custar trilhões de dólares nos próximos anos.

Nenhum dos dois envolvidos no último tratado nuclear parece preparado ou interessado em fazer investimentos maciços para expandir significativamente seus arsenais nucleares.

A China e a teoria dos três escorpiões

A China, por sua vez, desperta cada vez mais preocupação internacional devido a atividades militares pouco divulgadas. Uma investigação das organizações sem fins lucrativos Open Nuclear Network (ONN) e Verification Research, Training and Information Centre (Vertic), do ano passado, revelou por meio de imagens de satélites como o gigante asiático está secretamente avançando em sua produção de ogivas nucleares.

Segundo o jornal The Washington Post, Pequim está reformulando rapidamente uma rede de instalações usadas para fabricar componentes nucleares. Devido à situação alarmante, os EUA buscam inserir a China no diálogo internacional sobre o assunto.

Especialistas em estratégia nuclear alertam que a entrada da China como terceira grande potência atômica rompe a lógica que sustentou a estabilidade durante a Guerra Fria. À época, o equilíbrio era comparado a dois escorpiões presos em uma garrafa — cada um capaz de matar o outro, mas contido pelo risco de destruição mútua.

Com três potências nucleares relevantes, esse modelo pode deixar de funcionar. O analista político Andrew F. Krepinevich Jr explicou, em artigo para a Foreing Affairs publicado em 2022, que a chamada “teoria dos três escorpiões” descreve um sistema mais caótico, no qual cada país precisa se proteger simultaneamente de dois adversários, aumentando o risco de erro de cálculo e escaladas em momentos de crise.

“Em um mundo com um sistema nuclear tripolar haverá tanto um risco maior de uma corrida armamentista nuclear quanto incentivos ampliados para que os países recorram a armas nucleares durante uma crise”, escreveu Krepinevich.

 

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